06 julho, 2007

Se você não tem nada programado para o final de semana e está mesmo a fim de ficar em casa sossegado, então nada melhor que alugar um, dois ou três dvds. O Almanaque tem algumas dicas para uma ótima diversão que você encontra na Pontual.


DENZEL WASHINGTON ESTRELA NOVO FILME DE TONY SCOTT

A primeira dica de hoje é o novo filme do diretor Tony Scott (Fome de Viver, Amor à queima roupa) DE JÀ VU (2006) que acaba de chegar para locação. O filme, que mistura suspense, ação e ficção científica, traz no elenco o sempre competente Denzel Washington (Por um triz, Duelo de Titãs), Val Kilmer (Fogo contra fogo, Spartan), Jim Caviezel (Paixão de Cristo, O Conde de Monte Cristo) e Paula Patton (quase uma sósia de Halle Barry). DE JÁ VU tem a produção de Jerry Bruckheimer.

Denzel Washington é Doug, o policial designado para investigar a explosão de um barco que causou a morte de centenas de pessoas. Val Kilmer interpreta agente do FBI que apresenta a Doug, uma máquina capaz de enxergar e interferir nos acontecimentos dos últimos quatro dias e meio que antecedem a explosão. Doug usa a máquina para voltar no tempo para impedir a explosão. Jim Caviezel interpreta o terrorista que causa a tragédia.

DE JÀ VU é uma aventura policial envolvente que caminha pouco a pouco na direção do fantástico, no entanto sem perder o foco no realismo. Apesar da premissa da viagem no tempo, predomina o suspense a até o último minuto sobre se dará o desfecho da história.


NOVO 007


Outro filme que indicamos é o movimentado 007 – CASSINO ROYALE, dirigido por Martin Campbell que mais uma vez foi chamado para dar uma renovada no agente britânico com permissão para matar. Campbell, que dirigiu sucessos como Limite Vertical e A Máscara do Zorro, isso sem falar no primeiro 007 vivido por Pierce Brosnan (007 – Goldeneye).

Depois da saída de Brosnan, o ator Daniel Craig (Estrada para a perdição, Munique) assume o novo James Bond em 007 - CASSINO ROYALE e dá novo fôlego ao famoso agente secreto inglês.

Os produtores substituíram as parafernálias dos filmes anteriores por cenas de ação espetaculares, perseguições e um James Bond frio e calculista. Mudanças que fizeram desta vigésima aventura de 007 a melhor dos últimos vinte anos.

PEQUENA MISS SUNSHINE

Se você prefere um filme mais tranqüilo e emocional então indicamos PEQUENA MISS SUNSHINE, estréia na direção de Jonathan Dayton e Valerie Farris. No elenco nomes como Greg Kinnear (Melhor é impossível, Sabrina); Toni Collete (O Sexto Sentido, Shaft); Alan Arkin (O que é isso companheiro?), ator vencedor do Oscar 2007 de Melhor Coadjuvante.

Singelo, emocionante, bem dirigido e interpretado, PEQUENA MISS SUNSHINE cativa pela simplicidade com conta à história de uma família que sai do Novo México até a Califórnia numa Kombi amarela para realizar o sonho da menina de sete anos vivida por Abigail Breslin de participar de um concurso de beleza.

PEQUENA MISS SUNSHINE é um daqueles pequenos filmes que acabam por agradar ao público que quer assistir a um filme interpretado por pessoas de carne e osso. Este filme está bem distante das superproduções hollywoodianas repletas de efeitos especiais, sem emoção e nada que crie uma identificação com o espectador que arrecadam milhões de dólares. Felizmente ainda existem cineastas, roteiristas e atores que fazem filmes como PEQUENA MISS SUNSHINE, filmes feitos para pessoas com mais de trinta anos.

Bem amigos por hoje é só. Mas semana que vem voltamos com mais dicas e novidades em filmes e dvds.

Além dos dvds citados acima, você poderá locar ainda -JOGOS MORTAIS 3; O GRANDE TRUQUE; O ILUSIONISTA; O BOM PASTOR (dirigido por Robert De Niro) e LABIRINTO DO FAUNO.



Humberto Oliveira


ASSISTA AO TRAILER DE "DE JÀ VU"

09 abril, 2007

O ano em que meus pais saíram de férias
Inúmeros cineastas nacionais levaram às telas produções sobre a ditadura militar no Brasil como o polêmico Pra frente Brasil, dirigido pro Roberto Farias, O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto, que inexplicavelmente concorreu ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro, Lamarca e Zuzu Angel, ambos de Sérgio Rezende, Ação entre amigos, terceiro longa-metragem de Beto Brant, e Cabra Cega, de Toni Venturi.

Acaba de ser lançado em dvd mais um filme para esta galeria: O ano que meus pais saíram de férias, dirigido por Cao Hamburger, que depois do longa-metragem Castelo Rá-Tim-Bum, o filme, retorna ao universo infantil, misturando futebol, nostalgia, política e ditadura militar para contar a história do menino Mauro, que às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 1970, abruptamente tem seu cotidiano alterado quando seus pais, ativistas políticos lutando contra o regime de exceção, precisam fugir de Belo Horizonte, levando o garoto para a casa do avô no bairro Bom Retiro, comunidade judaica situada em São Paulo. Mas o avô sofre um enfarte e morre. Mirian e o marido deixam o menino, e seguem viagem. Mauro se vê sozinho sendo acolhido por um velho judeu chamado Shlomo e pela comunidade.

A principio, a relação entre Mauro e Shlomo, é conflituosa, mas com o passar do tempo, nasce entre eles uma ternura silenciosa, mas sincera. Paralelo aos conflitos do menino, a comunidade judaica se prepara para assistir pela televisão ou ouvir pelo rádio, a Copa do Mundo de Futebol que aconteceu no México em 1970. Enquanto isso, no Brasil, a repressão aumenta, e que no filme é mostrada como se fosse uma cobertura jornalística, nunca mostrando tudo o que acontece.

Considerado pelo crítico Rubens Ewald Filho, “o melhor filme nacional de 2006”, O ano em que meus pais saíram de férias reúne boas doses de nostalgia, política, ditadura e futebol. O roteiro é emocionante ser piegas. A história é contada sem pressa para que o espectador aprecie cada imagem, cada momento.

Humberto Oliveira

Ficha Técnica - Roteiro de Cláudio Gasperin, Bráulio Mantovani, Anna Muylaert, Cao Hamburger (colaboração de Adriana Falcão). Produção de Caio Gulane, Cao Hamburger e Fabiano Gulane. Co-produção de Fernando Meirelles (Domésticas, Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel), e Daniel Filho (A Partilha, A Dona da História e Se eu fosse você). A trilha sonora ficou a cargo de Beto Valadares e a montagem, é de Daniel Rezende.

Elenco - Simone Spoladore (Mãe), Eduardo Moreira (Pai), Caio Blat (Ítalo), Germano Haint (Shlomo), Michel Joelsas (Mauro), Daniela Piepszyk (Hanna) e a participação especial de Paulo Autran.

02 abril, 2007


300 o épico de Frank Miller que chega a Porto Velho em estréia nacional

Quem assistiu ao filme Sin City, a cidade do pecado, dirigido por Robert Rodriguez e Frank Miller, baseado na graphic novels deste, e se surpreendeu, certamente irá gostar do novo, violento e sanguinolento, 300, inspirado na obra de Miller e Lynn Varley, com direção de Zack Snyder, que estreou no cinema, dirigindo Madrugada dos Mortos, refilmagem do clássico de terror de George Romero.

Snyder, fã confesso de quadrinhos, fez questão de manter a fidelidade à obra de Frank Miller, inclusive utilizando muitos diálogos originais. Para reproduzir a Grécia Antiga, o cineasta contou com a mais alta tecnologia computadorizada, gravou todas as cenas em estúdio e telas azuis e verdes, para que os cenários fossem acrescentados na pós-produção, o que exigiu muita concentração dos atores, isso sem falar na preparação quase espartana dos atores para que seus corpos trabalhados e fossem mostrados na tela como os Espartanos reais. 300, estrelado por Gerard Butler, como Leônidas, rei de Esparta, deixa filmes similares como Tróia, de Wolfgang Petersen, Alexandre, de Oliver Stone e até mesmo, o oscarizado, Gladiador, de Ridley Scott, no chinelo.

O enredo, tanto da graphic novels quanto do longa-metragem 300, é baseado em fatos históricos ocorridos no ano 480 a.C, quando o rei de Esparta, Leônidas, reuniu um pequeno exército de trezentos homens para enfrentar os invasores Persas, liderado por Xerxes, (vivido no filme por um quase irreconhecível Rodrigo Santoro). Os Espartanos enfrentaram constantes e cada vez mais violentos ataques dos Persas, que haviam subjugado violentamente cidades como Trácia, Macedônia e Tessália . A batalha ficou conhecida como A Batalha dos Termópilas, que foi imortalizada por historiadores, escritores, poetas e agora em nova versão para o cinema, pois a mesma história havia sido levada às telas pela primeira vez em 1962, dirigida Rude Mate e estrelada por Richard Egan. (disponível em dvd pela Classicline).

300 exibe cenas violentas do começo ao fim. O cineasta Zack Snyder encheu sua versão com efeitos especiais incríveis, que traduzem perfeitamente em imagens impregnadas de som, fúria, batalhas, sangue e sexo, regados a muito rock roll na trilha sonora. Isso sem esquecer de mencionar, roteiro bem escrito, bons diálogos, repletos de ironia, e claro, filosofia, porém sem muita pose. Trocando em miúdos: 300 é uma experiência visual fascinante.

Um dos momentos memoráveis de 300, que define todo o filme, acontece quando, Leônidas à frente de seu exército, se depara com um aliado que se surpreende com a quantidade de homens que o Rei leva para enfrentar os Persas, comparando com seu exército, que milhares de homens. Então Leônidas pergunta qual a profissão de alguns homens que integram o numeroso batalhão, respondendo que são ferreiros, artesãos, pessoas comuns. Então Leônidas sorri, vira-se para seus homens e também lhes faz a mesma pergunta, os espartanos gritam – Soldados. Leônidas olha para o amigo e irônico lhe diz – então estou levando mais soldados que você. E segue. Daí para frente à ação não pára e muito sangue jorra quase que no rosto do espectador.

Nos quadrinhos, a trama é centrada apenas na batalha entre os Espartanos e Persas, mas para o filme, Snyder optou por acrescentar uma trama paralela envolvendo a rainha Grogo. Enquanto Leônidas e seus 300 lutam para barrar o exército gigante comandado por Xerxes, Grogo tenta convencer o Conselho de Esparta a enviar seu exército para ajudar o rei Leônidas.

Zack Snyder tomou mesmo gosto e irá dirigir outra esperada adaptação de mais uma história em quadrinhos, Watchmen, dos cultuados Alan Moore e Dave Gibbons. Quanto a 300, a imprensa mundial criticou o filme, dizendo que o diretor fez uma “apologia da guerra”. No meu ponto de vista, parece que eles não perceberam que 300 é um filme sobre a guerra entre os conquistadores Persas e os disciplinados Espartanos, que nasciam, cresciam e viviam para treinar e ser um soldado, ou melhor uma arma de guerra, e morriam com honra nos campos de batalhas. Pior que a realidade não pode ser.

Elenco

Podemos dividir a carreira de Gerard Butler em duas fases distintas: a primeira pela sua participação em filmes inexpressivos como, Drácula 2000, Reino de Fogo, co-estrelado por Christian Bale, Lara Croft, origem da vida, e a ficção científica sem pé nem cabeça, Linha do tempo, dirigida por um Richard Donner no piloto automático, isso sem falar no musical, Fantasma da Ópera; e a segunda fase, a partir e depois de 300. O resto é história.

Além da presença magnética de Gerard Butler, o elenco conta também com o talento de Rodrigo Santoro, que conquista cada vez mais espaço em Hollywood, e merecidamente, apesar da má vontade de alguns invejosos de plantão; outro destaque é o ator David Wenham (Senhor dos Anéis, o retorno do rei, Van Helsing, o caçador de monstros), que interpreta Dílios, narrador dos acontecimentos. E claro, a bela e talentosa, Lena Headey, presença marcante no filme como Grogo, rainha de Esparta e mulher de Leônidas. Lena atuou nos filmes Irmãos Griim e Possessão, e está escalada para interpretar Sarah Connor, no seriado, Crônicas de Sara Connor, que contará a história da mãe de John Connor, da franquia O Exterminador do Futuro.
Humberto Oliveira

Serviço

300 estreou sexta-feira (30 de marçoa) e está em cartaz no Cine Veneza
De segunda à sexta, sessões às 19h00 e 21h30
Sábado e domingo, sessões às 17h00 (meia entrada para todos), 19h00 e 21h30.
Inteira – R$ 10,00
Meia – R$ 5,00

22 março, 2007


Duelo de Bambas
A polêmica musical entre Noel Rosa e Wilson Batista


A famosa polêmica teve início em 1934 quando Silvio Caldas gravou o samba Lenço no pescoço, sexta composição de Wilson Batista, e cuja letra, o autor exaltava a malandragem.

Meu chapéu de lado/tamanco arrastando/lenço no pescoço/navalha no bolso/eu passo gingando/provoco e desafio/eu tenho orgulho de ser tão vadio (...)

Noel Rosa não gostou. Então compõe Rapaz folgado como resposta.

Deixa de arrastar o teu tamanco/pois tamanco nunca foi sandália/e tira do pescoço o lenço branco/compra sapato e gravata/joga fora essa navalha/que te atrapalha (...) Malandro é palavra derrotista/que só serve pra tirar todo valor do sambista/ por isso proponho ao mundo civilizado/não te chamar de malandro/mas de rapaz folgado.

O “duelo musical” então passou a ser comentado nas rodas de músicos que se reuniam no Café Nice, reduto de feras como Mário Lago, Custódio Mesquita, Orestes Barbosa, Ataulfo Alves entre tantos outros. Wilson Batista retruca com Mocinho da Vila:

Você que é mocinho da Vila/fala muito de violão/barracão e outras coisas mais/se não quiser perder o seu nome/cuide do seu microfone/e deixe quem é malandro em paz/injusto é seu comentário/fala de malandro quem é otário (...)

Apesar da polêmica, Noel e Wilson ficam amigos. Mas quando Noel lança belíssimo Feitiço da Vila, parceria com Vadico (Oswaldo Gogliano),

Quem nasce lá na Vila/nem sequer vacila ao abraçar o samba/que faz dançar os galhos do arvoredo/e faz a lua nascer mais cedo (...)

Wilson Batista não resiste retomando a polêmica com o samba Conversa fiada:

É conversa fiada/dizerem que o samba na Vila tem feitiço/eu fui lá/ e não vi nada disso (...)

Conversa fiada fez Noel acreditar que Wilson realmente estava querendo briga, resolvendo dar continuidade a polêmica musical, que para ele, Noel, não tinha a menor importância. Foi assim que em 1936 uma cantora de vinte anos, Aracy de Almeida, grava Palpite Infeliz, mas uma parceria com Vadico. Esta resposta a Wilson, desmentindo os que negam a polêmica.

Quem é você que não sabe o que diz/meu Deus do céu que palpite infeliz/salve Estácio, Salgueiro, e Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz/que sempre souberam muito bem/que a Vila não quer abafar ninguém/só que mostrar que faz samba também (...)

No Café Nice, alguns declaravam que Noel estaria compondo uma série de sambas objetivando replicar as expressões de Wilson Batista; outros garantiam que era Wilson que criara uma coleção definitiva, com torpezas e inferioridades envolvendo Vila Isabel e Noel Rosa. Á esta altura Wilson resolveu apelar e baixou o nível da polêmica fazendo referência ao defeito do queixo de Noel, com o maldoso, Frankenstein da Vila.

Boa impressão nunca se tem/quando se encontra um certo alguém/que mais parece o Frankenstein/mas como diz o refrão/por uma cara feia/perde-se um bom coração/entre os feios/estás na primeira fila/eu te batizo/Fantasma da Vila (...)

Desta vez Noel não reagiu de imediato dando tempo e terreno para que Wilson atacasse mais uma vez com um novo samba intitulado Terra de cego.

Perde a mania de bamba/todos sabem qual é/o teu diploma no samba/és o abafa da Vila/eu bem sei/mas na terra de cego/quem um olho é rei (...)

Mas para Noel a disputa estava encerrada. Num encontro casual entre os compositores, que riram muito da propalada polêmica musical. Noel então joga uma pá de cal definitiva na “falsa inimizade” com Wilson Batista, e usando a música que este usara em Terra de Cego, Noel escreveu os versos para o samba Deixa de ser convencido.

Deixa de ser convencido/todos sabem qual é/teu velho modo de vida/és um perfeito artista/eu bem sei/ (...) E no picadeiro desta vida/serei o domador/serás a fera abatida (...)

Alguns dos sambas que fizeram parte da polêmica não chegaram a ser gravados no momento em que foram compostos, ou seja, no aceso da briga entre Wilson Batista e Noel Rosa. Depois de os compositores se tornarem amigos, de até mesmo negarem a polêmica, e Noel ter morrido, é que a briga passou ao disco na forma como aconteceu. Foi, em 1956, quando Roberto Paiva cantou as composições de Wilson, e Francisco Egídio, as de Noel. Um LP de dez polegadas, hoje peça de coleção, com capa antológica do cartunista Nássara. Ironicamente, foi o próprio Wilson Batista quem bolou a posição dos dois na capa do disco, exigiu a camisa do Flamengo e, praticamente, ditou o texto de apresentação do disco.

Noel morre em 4 de maio de 1937. O grande público reconheceria definitivamente seu talento dez anos depois. Setenta anos depois de sua morte, o Poeta da Vila é tema de homenagens, peças de teatro e até de filme sobre sua vida. Quanto a Wilson Batista,não devemos opinar sobre sua obra apenas quanto aos sambas que fizeram parte da polêmica musical com Noel Rosa. No túmulo do Poeta da Vila, a última homenagem em forma de versos escritos por ele e extraídos de Silêncio de um minuto (1935):

Luto preto é vaidade/neste funeral de amor/o meu luto é a saudade/e a saudade não tem cor (...)

Wilson Batista morreria trinta anos depois de Noel, em 1967, sozinho, esquecido e pobre num hospital do Rio de Janeiro. No fim, Wilson tinha um fiapo de voz e mal podia bater seu ritmo preferido, o samba, numa caixa de fósforo, instrumento dos compositores sem conhecimento formal em música. Wilson deixou obras primas como Louco (ela é seu mundo), Pedreiro Waldemar, (imortalizada na voz de Blecaute), Bonde São Januário, (parceria com Ataulfo Alves), Mãe Solteira, Seu Oscar , Acertei no milhar, (com Geraldo Pereira), Dolores Sierra, (grande sucesso na voz de Nelson Gonçalves), e assim por diante totalizando mais de 700 composições.

O poeta Manuel Bandeira declarou certa vez que os versos mais bonitos da música brasileira são – “Tu pisavas nos astros distraída” poema de Orestes Barbosa para Chão de Estrelas e “nos olhos das mulheres/ no espelho do meu quarto/é que eu vejo a minha idade/ o retrato na sala, faz lembrar com saudade/a minha mocidade/ a vida para mim/ tem sido tão ruim/ só desenganos/ ah, eu daria tudo/ para poder voltar aos meus vinte anos”, letra de Wilson Batista para Meus vinte anos.

Humberto Oliveira

21 março, 2007


Vadico, o parceiro perfeito de Noel


Parceiros, Noel teve muitos. Truculentos como o pugilista Kid Pepe, geniais como Cartola e João de Barro, chegados na malandragem como Ismael Silva e Heitor dos Prazeres, poetas como Orestes Barbosa e Lamartine Babo. E outros de diferentes estilos. Mas o que mais casou com os versos, o humor e o talento do Poeta da Vila foi o paulista Osvaldo Gogliano, ou simplesmente Vadico.

Noel conheceu Vadico em 1932. O encontro aconteceu nos estúdios da gravadora Odeon. Por sugestão do maestro Eduardo Souto, Noel ouviu uma das melodias de Vadico. Dois dias depois, estava pronto um dos maiores clássicos da música popular brasileira, o samba Feitio de Oração, e nascia a parceria mais perfeita da carreira de Noel Rosa. E, naturalmente, de Vadico também.

Além de Feitiço da Vila, eles foram parceiros em Conversa de botequim, Pra que mentir?, Quantos beijos, Só pode ser você, Cem mil réis, Tarzan, o filho do Alfaiate.

E assim, o italiano, paulista do Brás, acabou por se tornar no parceiro que mais se entrosou com o samba carioquíssimo de Noel Rosa. A inspiração do piano de Osvaldo Gogliano era o contraponto ideal para a poesia de Noel.
Humberto Oliveira

19 março, 2007


Setenta anos sem Noel Rosa, o Poeta da Vila

No dia 4 de maio deste ano, os apreciadores da legitima música popular brasileira relembram o falecimento de um dos mais expressivos e geniais compositores. Há setenta anos morria Noel de Medeiros Rosa, Noel Rosa, o Poeta da Vila, que deixou mais de duzentas composições, algumas entre elas se tornaram clássicos da nossa música como Último desejo, Três apitos, Conversa de Botequim, Feitio de Oração, Palpite Infeliz, Não tem tradução, Feitiço da Vila, Filosofia e tantas outras que se fossem relacionadas aqui, certamente tomariam inúmeras e merecidas páginas.

Tudo começou naquele chalé modesto da Rua Teodoro da Silva, onde Noel nasceu em 11 de dezembro de 1910, de parto a Fórceps, que provocou afundamento e fratura no maxilar, causando no queixo o defeito que o acompanharia por toda a vida. O pai era Manuel Garcia de Medeiros Rosa, que lhe ensinaria os primeiros acordes no violão. A mãe, a professora Martha de Medeiros Rosa, mantinha uma escola na própria casa da família.

A vida de Noel Rosa foi curta, apenas oito anos, mas a carreira foi uma das mais produtivas da história do nosso cancioneiro e o bastante para influenciar a cultura brasileira. A vida de Noel passou rápida, musical e bonita, terminando como começou, no chalé de madeira onde nasceu, na Vila Isabel.

Muito foi dito e escrito sobre a obra e a vida de Noel Rosa, que morreu jovem, com apenas 26 anos e cinco meses vividos com muita intensidade e paixão. Mas tudo que se disse dele ou de seus sambas, marchas carnavalescas, paródias, ainda é pouco quando conhecemos a extensão de sua obra como compositor, que influenciou artistas como Chico Buarque e Paulinho da Viola.

A música de Noel Rosa teve inúmeros interpretes como Francisco Alves, Mário Reis, Silvio Caldas, Orlando Silva, Moreira da Silva,mas foram duas cantoras que realmente souberam traduzir Noel com suas interpretações: Aracy de Almeida e Marília Batista, cada uma ao seu modo se tornariam herdeiras que imortalizariam muitos de seus sambas.

É impossível, que numa antologia sobre Música Popular Brasileira, uma ou duas músicas de Noel Rosa não estejam ali incorporadas no repertório. Interpretes como Nelson Gonçalves, Mário Reis, Aracy de Almeida, e Maria Bethânia gravaram discos inteiros dedicados a composições do Poeta da Vila. Isso não é para qualquer um, muito menos para um artista morto há setenta anos e que surgiu numa época que não havia televisão e nem mesmo a Revista do Rádio que anos mais tarde,assim como a televisão, revelaria não apenas a voz do artista,mas também seu rosto para o público.

Noel faz parte do seleto clube que reúne monstros sagrados, mas esquecidos da nossa música. Ary Barroso dominou o cenário musical brasileiro por nada menos que seis décadas,inclusive abençoando a Bossa Nova, como atesta o registro fotográfico que flagrou Ary com Tom Jobim, Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, três dos pilares do movimento que teve início a partir de 1957 e logo ganhou o mundo.

Apenas mais dois compositores podem ser citados como integrantes deste seleto grupo de artistas que se tornaram unanimidades – João de Barro, o Braguinha que faleceu este ano quando completaria oitenta anos de atividades como compositor, e claro, Dorival Caymmi com quase sessenta anos de carreira.
Humberto Oliveira
foto - Capa do songbook de Noel Rosa lançado nos anos 90 reunindo grandes nomes da MPB como Tom Jobim, Chico Buarque, João Nogueira, Gal Costa, Carlos Lyra, Luiz Melodia, Maria Bethânia, Nelson Gonçalves entre outros.

27 fevereiro, 2007


OSCAR 2007

Na noite da 79ª entrega do Oscar da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, membros votantes foram generosos distribuindo estatuetas douradas para documentário apresentado por Al Gore, esta sim uma “verdade inconveniente”, desprezou o filme Babel que recebera sete indicações e ganhou apenas em uma categoria, melhor trilha sonora, colaborou para a derrota em dose dupla do veterano Clint Eastwood que dirigiu dois longas-metragens sobre a Segunda Guerra Mundial como A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima, que ganhou o Oscar de Edição de Som, e ainda encontrou espaço e tempo para premiar uma cantora como Atriz coadjuvante, Jennifer Hudson por sua atuação no superestimado e pseudo-musical Dreamgirls – em busca de um sonho, resolveu dar um novo suspiro a carreira de Allan Arkin, premiando-o com o Oscar de Melhor Coadjuvante e ao filme Pequena Miss Sunshine na categoria Melhor Roteiro, e conseqüentemente desbancando o franco-favorito, Eddie Murphy, que não gostou nem um pouco de ter perdido o que seria uma luz no fim do túnel para sua carreira há muito estagnada. Fora isso tudo correu como o planejado.

A cerimônia realizada no último domingo, 25 de fevereiro com transmissão pela Rede Globo com apresentação desastrosa da jornalista Maria Beltrão, deslumbrada e analfabeta no quesito Cinema, e ainda a presença inócua e os comentários óbvios do ator José Wilker. No palco, este ano a apresentação ficou por conta da atriz e comediante Ellen Degeneres, que segundo a brilhante Maria Beltrão, “é homossexual assumida”, ou seja além de não entender nada de cinema,ainda ousou tecer comentários sem nenhuma relevância.

Depois de três décadas e sete indicações,o cineasta Martin Scorsese levou sua estatueta de melhor diretor pelo filme Os Infiltrados, estrelado por Jack Nicholson, Leonardo Di Caprio e Matt Dillon. A produção ganhou ainda mais três categorias - Melhor Filme, Montagem para Thelma Schoonmaker, três vezes vencedora por filmes de Scorsese - Touro Indomável, Os Bons Companheiros e agora Os Infiltrados) colaboradora habitual de Scorsese e Roteiro adaptado de William Monahan baseado na trilogia Conflitos Internos (China)

Scorsese recebeu seu tão esperado Oscar das mãos de ninguém menos que Steven Spielberg que anunciou a premiação ao lado de Francis Ford Copolla e George Lucas. Em seguida, Jack Nicholson anunciou o vencedor do Oscar de Melhor Filme – Os Infiltrados. A presença de Spielberg, Lucas e Copolla para anunciar o Melhor diretor me pareceu, perdoe a repetição, óbvia demais. Lembrei quando Roberto Benini ganhou o Oscar por A vida é bela (alguém se lembra dessa bomba?) das mãos de ninguém menos que Sophia Loren. E como não poderia deixar de comentar quando Pedro Almodóvar ganhou seu Oscar anunciado por Antonio Banderas? Mas Oscar é assim mesmo.

Mais uma vez Scorsese teve de enfrentar Clint Eastwood pela estatueta dourada. Eastwood venceu em 2005 com Menina de Ouro contra O Aviador de Martin Scorsese, que desta vez venceu com Os Infiltrados contra Cartas de Iwo Jima, de Eastwood, que já acumula dois Oscar de Melhor diretor, pelo citado Menina de Ouro e por Os Imperdoáveis, realizado em 1992.

Quanto às categorias de Melhor Ator e Atriz, nenhuma surpresa quando os vencedores foram anunciados – Forest Whitaker pela sua atuação em O último Rei da Escócia e Ellen Mirren em A Rainha, que dedicou seu Oscar à Rainha Elizabeth II.

Ellen Mirren tinha sido indicada duas vezes com Atriz coadjuvante em As loucuras do Rei George (1994) e Assassinato em Gosford Park (2001). Quanto a Forest Whitaker, esta foi sua primeira indicação e com a premiação a Academia finalmente reconhece o talento deste ator que em 1988 ganhou a Palma de Ouro de Melhor Ator no Festival de Cinema de Cannes pela sua interpretação do músico de Jazz Charlie Parker em Bird, dirigido por Clint Eastwood. Whitaker agora faz parte da seleta galeria onde figuram atores negros como Sidney Poitier, Denzel Washington e Jamie Foxx.

O veterano Alan Arkin, que andava esquecido pela Academia, venceu na categoria Ator coadjuvante pelo filme Pequena Miss Sunshine, produção independente que conquistou críticos e boa parcela do público. Alan havia sido indicado duas vezes como Melhor Ator pelos filmes Os Russos estão chegando (1966) e Porque tem que ser assim (1968). A estreante Jennifer Hudson levou o Oscar de Melhor Atriz coadjuvante por sua atuação no musical Dreamgirls, em busca de um sonho. Mais uma para se juntar as premiadas esquecidas como Mira Sorvino e Marisa Tomei.

O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro ficou com A vida dos outros, que acabou roubando a premiação do aclamado Labirinto do Fauno, que em compensação levou três Oscar para casa – Direção de Arte; Maquiagem e Fotografia. Quanto ao badalado quebra-cabeça cinematográfico Babel dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñarritu, que mesmo tendo no elenco astros como Brad Pitt e Cate Blanchett, e sete indicações, acabou por ganhar apenas um Oscar de Melhor trilha sonora original.

Babel, graças a sua estrutura complexa e com um roteiro costurados por várias histórias e personagens que se entrecruzam como Short Cuts, de Robert Altman e Magnólia, dirigido por Paul Thomas Anderson, sendo um pouco mais radical e acabou por dividir a crítica que taxou o filme de confuso, mas o título do filme diz tudo – Babel quer dizer confusão.

A noite também foi recheada de homenagens como a feita ao maestro e compositor italiano Ennio Morricone que recebeu um Oscar Honorário pelo conjunto da obra entregue por Clint Eastwood que recordou o fato de ter se tornado um Astro do cinema justamente pelo filme Por um punhado de dólares do diretor Sérgio Leone, que teve trilha sonora composta por Morricone, que ali fazia sua estréia.

A homenagem foi emocionante e quando Morricone entrou o maestro foi aplaudido de pé pela platéia. Morricone compôs trilhas para filmes como Cinzas do paraíso, de Terence Malick, Era uma vez na América (1984), de Sérgio Leone, Bugsy (1991), de Barry Levinson, Os Intocáveis (1987), de Brian Di Palma, Cinema Paradiso (1989), de Giuseppe Tornatore, A Missão (1986), de Rolland Jaffe e centenas de outras produções importantes da História do Cinema.

A Academia prestou homenagem aos escritores e roteiristas mostrando cenas de filmes em que estes profissionais são protagonistas. Filmes como Quando Paris alucina (1964), de Richard Quine e O Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, ambos protagonizados por William Holden; Testa de ferro por acaso (1976), de Martin Ritt; com Wood Allen; Farrapo Humano (1945), de Billy Wilder e estrelado por Ray Milland; Tiros na Broadway (1994), de Woody Allen, e tendo como protagonista John Cusack; Louca Obsessão (1990), de Rob Rainer, onde James Caan interpreta um escritor que sofre um acidente de carro e fica a mercê de um fã e Ed Wood (1994), de Tim Burton, com Johnny Depp no papel do “pior diretor do mundo”, Edward D. Wood.

Outra homenagem da noite foi aos vencedores do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, categoria que passou a existir a partir de 1956, sendo o primeiro a vencedor, A Estrada da Vida, de Federico Fellini, que ganharia mais três vezes com Noites de Cabíria (1957); Oito e meio (1963) e Amarcord (1974), em segundo lugar estão Ingmar Bergman com três produções – A Fonte da Donzela (1960), Através de um espelho (1961) e Fanny e Alexander (1983); seguido pelo diretor italiano, Vittorio Di Sica com dois filmes – Ontem, hoje, amanhã (1964) e O jardim dos Finzi-Contini (1971).

Foram exibidos também cenas dos filmes, Meu Tio (1958), de Jacques Tati, Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus, Um homem, uma mulher (1966), de Claude Lelouch, Z (1969), de Constantin Costa-Gavras, Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970), de Elio Petri, O discreto charme da burguesia (1973), de Luis Buñuel, A noite americana (1973), de François Truffaut, A História Oficial (1985), de Luis Puenzo, A Festa de Babete (1987), de Gabriel Axel, Pelle, o conquistador (1988), de Billie August e Cinema Paradiso (1989), de Giuseppe Tornatore.

Como se tornou tradicional nas festas de entrega do Oscar, a Academia recorda aqueles que faleceram no ano anterior. In memoriam mostrou cenas com Glenn Ford (Gilda); Bruno Kirby (O Poderoso Chefão, parte 2), Alida Valli (O Terceiro Homem), Red Buttons, Gino Pontercorvo (Queimada), June Allyson, Gordon Parks (Shaft), Philippe Noiret (Cinema Paradiso), Carlo Ponti, Peter Boyle (Táxi Driver), Sidney Sheldon (Casal 20, Jeannie é um gênio), Jack Palance (Os brutos também amam), Mako (Conan, o destruidor), Jack Warden (Mais forte que o ódio) e Robert Altman (O Jogador), foram alguns dos homenageados.

A Academia também exibiu um clipe editado pelo diretor Michael Mann, de Miami Vice, mostrando como o cinema enxerga os Estados Unidos através de filmes como O Poderoso Chefão, Ali, Faça a coisa certa, O Nascimento de uma Nação, Rastros de ódio, O Aviador, A Cor púrpura, Blade Runner, Magnólia, Cães de Aluguel, Fúria sanguinária, Doutor Fantástico, O Soldado anônimo, O Resgate do soldado Ryan, Forrest Gump e até o recente Rock Balboa.

Outro ponto interessante da noite foi à forma encontrada para anunciar os indicados nas categorias de Roteiro original e roteiro adaptado. Trechos dos respectivos roteiros foram lidos enquanto as imagens dos filmes indicados eram mostradas.

A apresentadora do Oscar este ano foi a atriz e comediante Ellen Degeneres cujas piadas, que pareciam mesmo sem graça, saíram prejudicadas pela tradução simultânea feita por Elisabete Hart e pelas inconvenientes intromissões da apresentadora e jornalista Maria Beltrão, que a Rede Globo escalou. Pior ainda foram os comentários óbvios e pessoais do ator José Wilker que pela terceira vez conseguiu estragar a noite. Wilker alegou não torcer por Martin Scorsese pelo simples fato de que ele dirigira uma refilmagem de uma produção chinesa (Conflitos internos). Pura bobagem, pois o clássico Ben-Hur, ganhador de onze Oscar também era uma refilmagem.

Pior ainda foi a tal Maria Beltrão que deu inúmeras mancadas durante a apresentação do Oscar. Por exemplo, ela trocou Federico Fellini ou “Felino”; o compositor da trilha sonora do filme Babel, é argentino, mas para Maria Beltrão, ele é “mexicano”, enquanto a apresentadora do Oscar, Ellen Degeneres fazia suas piadas sem graça, Elisabete Hart fazia a tradução simultânea, no entanto, Beltrão falava mais alto e ao mesmo tempo, resultado: muitas vezes o espectador ficou sem saber o que fora dito. Outra afirmação incorreta da apresentadora foi dizer que a Cate Blanchett teria ganho um Oscar de Melhor Atriz por sua atuação no filme Elizabeth (1998), mas quem ganhou o prêmio foi mesmo Gwyneth Paltrow por Shakespeare apaixonado, de John Madden. Cate Blanchett ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2004, interpretando Katherine Hepburn em O Aviador, de Martin Scorsese.

Lembramos com tristeza que até agora apenas quatro dos filmes candidatos ao Oscar deste ano foi exibido nos cinemas de Porto Velho – Carros, Superman, o retorno, Os Infiltrados, que foi exilado no Cine Brasil, e O Ilusionista, que está sendo exibido no Cine Rio.

Nossa última esperança é aguardar que sejam lançados em dvd e que cheguem nas locadoras, filmes como Babel, Labirinto do Fauno, A Rainha, O último Rei da Escócia, Maria Antonieta (que ganhou o Oscar de Melhor Figurino), o documentário Uma verdade inconveniente (ganhador de duas estatuetas – Melhor documentário e Melhor música), Dreamgirls, O Grande truque, Pequena Miss Sunshine, e muitos outros que ainda não tivemos oportunidade de assistir.

Até o ano que vem quando o Oscar completa oitenta anos. Um forte abraço.


Humberto Oliveira

31 janeiro, 2007


Ruy Castro, um cinéfilo para sempre


Meu primeiro contato com a obra do jornalista e biografo Ruy Castro aconteceu nos início dos anos 90 quando a Companhia das Letras lançou de sua autoria, O Anjo Pornográfico, biografia definitiva do dramaturgo Nelson Rodrigues. Desde então aguardo ansioso cada livro novo, cada nova biografia.

De lá para cá,nós leitores, temos à nossa disposição jóias como Chega de Saudade – A História e as histórias da Bossa Nova; Saudade do século XX; Estrela solitária – um brasileiro chamado Garrincha; Ela é carioca; A onda que se ergueu no mar; Carmen entre outros. Isso sem mencionar a assídua colaboração em jornais, revistas, e prefácios de livros alheios,a organização da obra não-teatral de Nelson Rodrigues e dos livros Um filme é um filme – o cinema de vanguarda dos anos 60, de José Lino Grunewald e Um filme por dia – crítica de choque (1946 a 1973),de Antonio Muniz Viana, lançados pela Companhia das Letras em 2001 e 2004, respectivamente.

O feitiço virou contra o feiticeiro quando a mesma editora lançou no final de 2006 mais um volume desta coleção sobre cinema intitulado Um filme é para sempre, com artigos de Ruy Castro organizados pela jornalista Heloísa Seixas, sua mulher na vida real. Ruy Castro acostumado a organizar e divulgar a obra dos outros, demorou para aceitar a proposta feita pela editora e por Heloísa. Mas no final das contas, Ruy acabou vencido pelo argumento que eles usaram,ou seja, fato da qualidade incontestável do material.

Heloísa Seixas suou muito para organizar os textos publicados em jornais e revistas entre 1975 e 2006, mas valeu a pena tanto trabalho. O leitor não tem do que reclamar. Mas não espere encontrar neste livro artigos sobre filmes como Casablanca, Cidadão Kane ou Um corpo que cai,porém terá o prazer de ler textos deliciosos sobre figuras como Orson Welles, Billy Wilder, Alfred Hitchcock, Humphrey Bogart e Fred Astaire, para citar alguns. E a lista é enorme.

O texto de introdução da organizadora, é quase um trailer sobre o leremos a seguir. Começa com “A engenharia dos musicais” enfocando lendas como Busby Berkeley, que dirigiu filmes como Cavadoras de Ouro e Rua 42,ambos de 1933, Bob Fosse (Cabaret, All that jazz), Gene Kelly (Sinfonia de Paris, Cantando na chuva) ,e claro, Fred Astaire (Picolino, Meias de seda).

Tem mais: James Dean – a morte do Superboy em Pequenópolis, onde ele revela que Dean era rebelde apenas nos filmes e que na vida real a única vez em que passou dos limites acabou morrendo naquele acidente automobilístico. Em dois artigos – Porta voz da minoria adulta e Todos os detalhes sujos, sobre ninguém menos que o genial Woody Allen. Nos dois textos ficamos sabendo que Allen nada tem de tímido, sobre o escândalo que muitos pensaram que levaria a carreira do cineasta para o vinagre, e não poupa Mia Farrow, a quem um biógrafo chama de “mulher com sérios problemas mentais” ou “uma mera babá da Unicef”, uma referência maldosa a mania de Mia de adotar crianças com o mesmo problema dela. Nesta biografia citada por Ruy Castro, o autor ressalta que apesar de Allen sempre negar que seus filmes não sejam biográficos, na verdade seus roteiros dizem o contrário. Assista e confira.

Destaque também para John Wayne – enterrado junto com o Western, Wayne faleceu em 11 de junho de 1979, depois de anos de luta contra o câncer. Ou ainda, Os ternos também amam – uma nova visão sobre Shane (Ruy nunca cita este filme pelo seu título em português, Os brutos também amam).

Emoções da matinê, sobre os 231 seriados produzidos entre 1929 e 1955 nos estúdios da Republic, Universal, Columbia e Mascot. Cita seriados como Perigos de Nyoka (1942); As aventuras do Capitão Marvel (1941) e O Fantasma (1943) os dois últimos estrelados pelo atlético Tom Tyler , que atuou no clássico No tempo das diligências (1939) de John Ford.

Não poderia de citar o artigo intitulado Jerry, monstruoso gênio, sobre Jerry Lewis e sua mania de grandeza, insegurança e egocentrismo que acabou por afastar o parceiro Dean Martin. As revelações sobre as atitudes do comediante de filmes como Bagunceiro arrumadinho e a versão original de O Professor aloprado, mostram que realmente ele era um gênio, mas também um monstro.

O que dizer do filme Freaks (no Brasil, Monstros) rodado em 1932 pelo cineasta Tod Browning (Drácula). Freaks foi banido das telas americanas, não por ser violento, mas pelo fato de mostrar aberrações reais expostas num circo. Se você ficou curioso sobre o filme de Browning, ele está disponível em dvd. No livro, Ruy Castro dedica textos inspirados para filmes como Gilda (1946) de Charles Vidor e estrado por Rita Hayworth e Glenn Ford e revela que Gilda é mesmo um filme homo, bi e tudo mais que a imaginação do leitor permitir. Claro que no filme tudo está tudo devidamente escondido em subtextos. Repare nos olhares. Mas existe espaço também para uma homenagem, digo,uma declaração de amor ao que muitos consideram, incluindo eu, o melhor musical da história do cinema – Cantando na chuva (1952) no texto intitulado Uma serenata para o maior musical do cinema.

Leia o artigo e se puder alugue ou compre o dvd duplo de Cantando na chuva e se delicie com as presenças iluminadas de Cyd Charisse (as pernas mais bonitas do cinema); Debbie Reynolds (linda no esplendor dos seus 19 aninhos); Donald O’Connor, o parceiro ideal para Gene Kelly, Jean Hagen, que interpreta uma atriz do cinema mudo e que tem uma voz horrível, mas Ruy revela que na verdade aquela voz irritante, Jean fazia de propósito e que quando Debbie Reynolds canta e encanta, aquela voz sim é de Jean Hagen. Surpresa! Ah, ia esquecendo. O número de Gene Kelly cantando e dançando Sing in the rain é realmente genial, não graças apenas as proezas de Gene, mas a genialidade de um jovem chamado Stanley Donen.

Sei que muitos vão achar exagero a minha confissão, mas estou sendo sincero. Ao ler estes artigos de Ruy Castro do livro Um filme é para sempre, infelizmente me sinto um analfabeto. Vai escrever bem assim lá na casa do meu amigo Marcos Souza.

Humberto Oliveira

30 janeiro, 2007


Com vocês, Tom Jobim - Maestro Soberano

O produtor e diretor Roberto de Oliveira, depois de entregar para o público nada mais que doze dvds contendo toda a trajetória de um dos maiores compositores brasileiros,Chico Buarque. Agora nos traz três novas pérolas que não podem faltar na sua coleção. Tom Jobim – Maestro soberano será lançado numa caixa com três dvds em comemoração aos 80 anos de Antonio Carlos Jobim (25/09/27 – 08/12/94).

Os três DVDs, dirigidos por Roberto Oliveira, destacam aspectos fundamentais formadores da obra e do gênio de Tom. O primeiro,intitulado “Chega de Saudade” com narração de Nelson Motta, faz um amplo painel da criação da Bossa Nova, e sua conseqüente disseminação mundial. O segundo disco, "Águas de março" enfoca a relação de Tom com a ecologia, e é narrado por Chico Buarque, amigo e parceiro em canções como “Eu te amo”; “Retrato em branco em preto”, “Sabiá”, “Pois é” entre outras. O terceiro episódio, "Ela é carioca", prioriza a ambientação da obra de Jobim no Rio de Janeiro e a paixão do maestro pela cidade, com narração de Edu Lobo.

Os documentários apresentam imagens clássicas de Tom - como o dueto com Elis Regina em "Águas de março" - e também momentos raros da filmografia sobre o maestro - como o espirituoso flagrante do encontro com Edu Lobo no estúdio, durante a gravação do álbum feito pela dupla em 1981. Álbum antológico e que traz jóias do repertório dos dois como “Chovendo na roseira”, de Tom, “Pra dizer adeus”, de Edu, “É preciso dizer adeus”, última parceria de Tom e Vinicius; “Canto triste”, parceria de Edu e Vinicius. Se ouvir já é estar perto do paraíso, imagine ouvir e ver.

Roberto de Oliveira traz também dois shows antológicos de Jobim e a Banda Nova - um gravado em São Paulo, em 1990, outro no Rio, em 1985 – permeados por registros históricos com o melhor do criador: "Chega de saudade", "Chovendo na roseira", "Estrada do sol", "Boto", "Luiza", "Correnteza", "Água de beber" entre tantas outras.

A herança de Jobim também é flagrada nas imagens do show de Reveillon de 1996, na Praia de Copacabana, em que Caetano Veloso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Gal Costa e Gilberto Gil prestam tributo ao mestre. E também na apresentação do Quarteto Jobim-Morelenbaum, formado por Paulo e Daniel Jobim, Paula e Jaques Morelenbaum.

Para os seguidores de Jobim, que têm na fé em Antonio o caminho da salvação pela música, o dia 25 de janeiro equivale a um segundo natal, 80 anos depois do nascimento do mestre e 50 desde o lançamento da pedra fundamental de sua obra.

Para que você tenha uma idéia das maravilhas que estes dvds reservam entre as mais de cinqüenta canções divididas entre os três discos: Eu não Existo sem você (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), a inevitável Chega de Saudade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), Se é por falta de Deus (Tom Jobim / Dolores Duran), a valsa tema da série homônima produzida pela Rede Globo nos anos 90, Anos Dourados (Tom Jobim / Chico Buarque),os primeiros sucessos como Incerteza (Tom Jobim e Newton Mendonça), Tereza da Praia (Tom Jobim e Billy Blanco), Lamento do Morro (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), A Felicidade (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), Se Todos Fossem Iguais a Você Estrada do Sol (Tom Jobim / Vinicius de Moraes), Eu Sei que Vou te Amar (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) e claro Desafinado (Tom Jobim / Newton Mendonça) entre outras maravilhas imperdíveis e eternas do nosso cancioneiro popular.
Quando Tom Jobim faleceu, eu ainda morava em Fortaleza e soube quando passava por uma residência que estava com a televisão ligada e com o som que dava para ouvir da rua. Voltava do cinema com minha namorada Katia, hoje minha mulher, e ouvimos juntos a triste notícia. Naquele momento meus olhos ficaram marejados. O Brasil perdera um dos seus maiores artistas. De lá para cá muitas outras perdas aconteceram, mas nenhuma como a daquela fria noite.
Humberto Oliveira
The Hit, estética inglesa anos 80 de Stephen Frears


The Hit (1984), o filme que revelou o diretor inglês Stephen Frears para Hollywood dirigiu filmes como Ligações perigosas (Glenn Close), Os imorais, (produzido por Martin Scorsee), Alta Fidelidade entre outros será lançado em breve em dvd, com o horroroso subtítulo - O Traidor.

Neste thriller policial Terence Stamp faz um ex-gângster que testemunha contra os "colegas" da máfia no tribunal e por isso, tem que viver escondido numa aldeia rural na Espanha, onde crê estar a salvo da vingança deles. Mas dez anos depois, dois assassinos contratados vividos por John Hurt (O Homem elefante) e Tim Roth (Tempo de Violência) são enviados a Espanha para o raptarem e escoltarem o traidor a Paris. A idéia é julgá-lo e executá-lo. Porém, Paris fica muito longe e nada corre como planejado.

Lembro que este The Hit foi um dos filmes mais comentados nos anos 80, mas apenas agora com seu lançamento em dvd poderemos realmente avaliar se aquilo que comentaram a respeito dele é verdadeiro ou se o filme está datado e perdeu seu impacto. Talvez sim, talvez não, mas acredito que valha a pena ver ou rever este legitimo produto do cinema inglês realizado em 1984.
Humberto Oliveira

Os Infiltrados (The Departed, 2006)

Esta terceira parceria entre o cineasta Martin Scorsese e o astro Leonardo Di Caprio, pode finalmente render um Oscar de Melhor diretor para Scorsese que vem sendo preterido ano após ano pela Academia.

No entanto, esta premiação pode estar ameaçada de não acontecer por três motivos – Cartas de Iwo Jima, dirigido por Clint Eastwood, que disputa cabeça a cabeça com o filme de Scorsese. Lembramos que O Aviador de Scorsese perdeu para Menina de Ouro de Eastwood e mesmo que digam que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, tudo pode acontecer.

Outro problema pode ser também o longa-metragem Babel, estrelado por Brad Pitt e que está fazendo relativo sucesso apesar de algumas críticas negativas quanto à confusão do roteiro que recheou o filme com inúmeras idas e vindas graças às histórias paralelas e o pior problema de todos consiste no fato de Os Infiltrados ser uma refilmagem baseada numa trilogia vinda da China intitulada Conflitos internos (2002/2003). Como um amigo falou que achava estranho que Scorsese, que merecia ter ganho Oscar por filmes como Táxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros, venha a ganhar exatamente por uma refilmagem. Mas resta agora apenas esperarmos a entrega dos prêmios. Boa sorte para Martin Scorsese.

Depois de Gangues de Nova York e O Aviador, Di Caprio retorna sob a batuta de Scorsese neste Os Infiltrados, que traz ainda Jack Nicholson como um violento chefão mafioso de Boston chamado Frank Costello que o departamento de polícia de Boston está investigando e quer acabar com seu reinado de crimes. Para tanto, Billy Costigan, vivido por Di Caprio, é o policial disfarçado que recebe a missão de se infiltrar na quadrilha e assim reunir provas contra o chefão, mas ao mesmo tempo Costello, que desconfia que a polícia enviou alguém para espioná-lo, toma o mesmo caminho e consegue que um dos seus protegidos faça parte da equipe que o investiga. A partir de então o filme se transforma num jogo de gato e rato mostrando cada um dos espiões – Di Caprio para a polícia e Matt Damon para Costello – óbvio que tudo isso não pode acabar bem de forma algum para nenhum dos lados.

Ainda no elenco, Martin Sheen, Alec Baldwin e Mark Wahlberg. Na equipe técnica do filme Scorsese se cercou dos colaboradores de sempre como o diretor de fotografia Michael Ballhaus e a montadora Thelma Schoonmaker.

Os Infiltrados apesar de ter recebido algumas indicações para o Oscar passou longe de ser exibido nos cinemas de Porto Velho e mais uma vez ficamos a ver navios, pois o exibidor fez questão de trazer nulidades como Xuxa gêmeas, que infelizmente não serve de consolo nem para os "baixinhos".
Humberto Oliveira
O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA AGORA EM DVD

A partir de 13 de fevereiro os cinéfilos chegados a um grande espetáculo, repleto de cores, elenco de estrelas e tendo na direção ninguém menos que um obcecado pela perfeição nos mínimos detalhes, terão seu desejo realizado. Chega finalmente em dvd o clássico O maior espetáculo da terra (The Greatest Show on Earth) dirigido em 1952 pelo megalômano Cecil B. De Mille, a dois passos de realizar ainda um projeto ainda maior – Os Dez Mandamentos, que seria então o seu último filme.

Muitos disseram que o principal mérito do filme é a grandiosidade com que Cecil B. DeMille retrata o empreendimento circense, definido nas palavras do próprio realizador como "um incansável gigante em movimento". Mas o filme é bem mais que isso. O maior espetáculo da terra é um misto de show de circo, recheado de dramas pessoais que tem como pano de fundo o dia a dia daqueles que trabalham sob a lona de um circo, no caso um de verdade que o diretor e sua equipe acompanharam durante um ano para captar a realidade daquelas pessoas, seu esforço, seus sonhos, tristezas, vitórias, mas acima de tudo seu companheirismo em momentos de tragédia.

O elenco inclui nomes como Betty Hutton, Cornel Wilde, Charlton Heston (que interpretaria ninguém menos que Moises em Os Dez Mandamentos), Dorothy Lamour, Gloria Grahame e James Stewart que passa o filme inteiro com o rosto pintado sendo revelado apenas no final do filme o porquê do disfarce.

Charlton Heston faz Brad Braden, o chefe com serragem nas veias, que mantém a qualquer custo o circo Ringling Brothers and Barnum & Bailey em pé. Cornel Wilde é o Grande Sebastian, um lendário trapezista que se rivaliza com Braden pela conquista de Holly (Betty Hutton). Ao lado do trio protagonista contracena uma dupla mais sombria: o palhaço Butons (James Stewart), ex-médico procurado pelo assassinato da mulher, e Klau (Lyle Bettger), um domador de elefantes sádico. Todos vivem momentos de apreensão e euforia, erguendo e reerguendo o espetáculo em cada cidade; porque chova ou faça sol, o show deve continuar.
Humberto Oliveira

16 janeiro, 2007


Tudo começou com uma conversa com meu amigo e jornalista Marcos Souza. Falei pra ele que estava pesquisando para escrever um artigo sobre as melhores trilogias do cinema,no entanto, o que era para ser apenas um artigo foi ganhando peso, a pesquisa se aprofundando e no final tive de dividir em três partes ou numa espécie de trilogia. E o resultado final o caro leitor pode acompanhar a partir de agora. Cinema é assim mesmo. Uma paixão que nos arrebata e quando mais assistimos, lemos, ouvimos ou escrevemos, queremos mais e mais e assim acabei por trazer para o leitor cinéfilo ou não, estas informações para o Blog Almanaque 2007.

Gostaria de oferecer esta trilogia aos amigos Marcos Souza e Eliane Viana, que gentilmente produziram as fotomontagens com cartazes de alguns filmes citados durante o artigo.
Ambos, assim como eu, temos paixão pelo cinema.

Trilogias do Cinema e afins – Primeira parte

O que seria dos produtores sem as continuações

Quando assistimos a um filme queremos sempre saber qual seria o desdobramento do final que é apresentado. Por exemplo: o que aconteceu com Rick e Renaut depois da fuga de Ilsa Lund e Victor Lazlo em Casablanca? Será que Shane, o pistoleiro de Os brutos também amam realmente morreu ou não? Qual o destino de Vicent, filho bastardo de Sonny apresentado em O Poderoso Chefão parte III, depois da morte da Mary e antes da morte de Michael Corleone? Bem são algumas das perguntas que intimamente fazemos ou poderíamos fazer ao término de um filme.

Por que existem as continuações? Para os produtores, uma forma de ganhar mais dinheiro, mas para o público, com certeza uma forma de saber mais sobre determinado personagem e o desdobramento de sua história ou até mesmo o que aconteceu antes dos fatos narrados no primeiro filme. Por exemplo: Como teria sido James Bond antes de se tornar um agente com duplo zero e sua permissão para matar? Ou ainda o que levou o Dr. Hannibal Lecter a se tornar um psicopata? De onde veio Martin Riggs antes de se tornar uma “máquina mortífera”? E John McClane de Duro de Matar?

Começando por O Poderoso Chefão

Muitos são os personagens marcantes de filmes de sucesso ou não,no entanto, um número mínimo é produzido de uma forma que possibilite uma seqüência, digamos, coerente e que satisfaça o público. No geral as continuações buscam apenas o lucro certo reciclando a fórmula do filme original. O Poderoso Chefão dirigido por Francis Ford Coppola em 1972, foi o filme que deu início a febre das seqüências. Em 1974, o mesmo Coppola dirigiria a continuação devidamente batizada de O Poderoso Chefão, parte 2. E a partir de então pudemos ver inúmeros filmes de sucesso ganhando continuações, muitas vezes desnecessárias.

Podemos citar Rock,um lutador, vencedor do Oscar de melhor filme de 1976 e graças ao sucesso foram produzidos mais cinco filmes com o personagem Rock Balboa vivido por Sylvester Stallone, que emplacaria outro personagem de sucesso – John Rambo – de Rambo, programado para matar, que deu origem a Rambo 2, a missão e Rambo 3, que Stallone quer ressuscitar numa tentativa de salvar sua carreira, aliás o roteiro está pronto para ser produzido.Voltando um pouco para O Poderoso Chefão, o filme acabaria por ganhar uma terceira parte em 1990.
Coppola trabalhou sob encomenda e mesmo com seu amplo conhecimento sobre o tema que abordara nos dois filmes anteriores, o terceiro exemplar parece forçado, principalmente com a entrada em cena de sua filha Sofia para o papel de Mary Corleone, filha de Michael (Al Pacino) e anteriormente destinado a Winona Ryder que adoeceu ficando impossibilitada de fazer o papel, que exigiria no mínimo uma atriz de talento,mas a filha de Coppola esvaziou a personagem. Outro detalhe foi a escalação de Andy Garcia para interpretar o filho bastardo de Santino Corleone, vivido por James Caan , morto no primeiro filme. Garcia, diga-se de passagem nunca foi um grande ator, certamente o personagem que interpreta no filme, Vicent Mancini (ele adotou o sobrenome da mãe) não passa de uma sombra perto do personagem de Caan, um homem violento e impulsivo. Certamente, O Poderoso Chefão tem boas seqüências, mas é inferior aos outros filmes da série. “A Trilogia da América” segundo George Stevens

Antes da “trilogia” dirigida por Coppola, outro cineasta tentou contar às transformações que fizeram dos Estados Unidos a nação que viria a se tornar. Estou falando de George Stevens, um artesão fascinado pelos detalhes que compõem uma cena grandiosa, meticuloso ao extremo com seus projetos pessoais, e que dirigiria o que ele mesmo chamou de “trilogia da América” – Um lugar ao sol (1951) baseado no romance clássico Uma tragédia americana de Theodore Dreiser e tendo no elenco Montgomery Cliff e Elizabeth Taylor, ambos no auge da beleza e do talento; dois anos depois Stevens escala Allan Ladd para interpretar um pistoleiro solitário chamado Shane no clássico Os brutos também amam (1953) que divide opiniões até hoje por se tratar de um western atípico e um divisor de águas do gênero. Para fechar a “trilogia”, o mais ambicioso dos três filmes, o épico Assim caminha a humanidade (1956) – novamente com Elizabeth Taylor, e ainda Rock Hudson e James Dean em seu terceiro e último papel no cinema. Os três filmes abordam temas similares como ambição, conquista, derrota, incapacidade de adaptação, amores impossíveis, tragédias tendo como pano de fundo a evolução de um país.Uma saga espacial que dominou as estrelas e o cinema

Dando um salto considerável nesta cronologia cinematográfica lembramos que em 1977 um jovem chamado George Lucas lançaria um filme que poucos acreditavam que faria sucesso, mas Lucas acreditava no potencial de Guerra nas Estrelas, ficção científica reunindo elementos de contos de fadas, aventuras e romance para contar em três partes a saga de Luke Skywalker interpretado por Mark Hamill, princesa Lea Organa (Carrie Fischer) e Han Solo vivido por Harrison Ford na luta junto aos rebeldes contra o vilão estelar Darth Vader a serviço do imperador Palpatine e da Estrela da Morte. O filme fez sucesso e Lucas ganhou subsídios para dar continuidade a sua saga intergaláctica. As inevitáveis seqüências viriam em seguida com O Império contra-ataca (1980) e o mais fraco, O Retorno de Jedi (1983).

Trinta anos depois, George Lucas retomaria o projeto de Star Wars com A ameaça fantasma e O ataque dos clones onde ele conta o que aconteceu antes do nascimento de Luke e como surgiu Darth Vader,isso mostrado no último filme desta segunda trilogia, A vingança do Sith. Para muitos fãs esta nova abordagem não convenceu graças aos furos nos roteiros, a péssima direção de Lucas, sem falar nas péssimas escolhas dos atores que interpretariam Anakin criança e adulto.

Como um velho herói das antigas matinês de domingo

Vamos adiante. De férias, George Lucas teve uma idéia genial – homenagear os antigos seriados exibidos nas matinês de domingos dos anos 30 e 40 – Steven Spielberg então foi chamado para dirigir um dos melhores filmes dos anos 80 – Os Caçadores da arca perdida (1980) que traz Harrison Ford, elevado ao patamar de astro graças ao seu papel na trilogia Star Wars e que agora passa a interpretar um professor de Arqueologia que nas horas vagas recupera tesouros para museus. Seu nome: Indiana Jones, um intrépido aventureiro que corre os maiores perigos e cujo chapéu nunca cai. Indy, para os mais íntimos,em sua primeira aventura vai em busca da Arca da Aliança na qual Móises teria guardado as tábuas onde Deus escrevera Os Dez Mandamentos. Acontece que o exército nazista de Hitler também quer a arca exatamente pelos poderes que ela possa conter.
O filme que tinha como slogan “a volta das grandes aventuras” continha realmente todos os ingredientes que faziam o sucesso dos velhos seriados como um mocinho que enfrenta perigos constantes, vilões que querem a qualquer custo conquistar o mundo, uma mocinha que precisa ser salva a cada quinze minutos, muita ação, suspense, um pouco de romance, misticismo e comédia, e pronto. Um diretor com o completo domínio de sua arte, atores bem escalados, roteiro repleto de reviravoltas e uma ótima equipe de produção fizeram de Os caçadores da arca perdida um arrasa quarteirão e por isso logo ganhou duas seqüências tão boas quanto o original – o sombrio e violento Indiana Jones e o templo da perdição e Indiana Jones e a última cruzada (1988) que traz Sean Connery como Dr.Jones,ninguém menos que o pai de Indiana. Connery rouba a cena e sua sintonia com Harrison Ford trouxe uma nova dimensão para o filme. Com certeza uma das melhores séries cinematográficas da história recente do cinema. Segundo informações divulgadas na internet finalmente em agosto começam as filmagens do quarto filme sobre as aventuras de Indiana Jones.
Continua...

Foto montagem gentilmente produzida e cedida pelo jornalista Marcos Souza

Trilogias do Cinema e afins - Segunda parte

O espetáculo dos dinossauros e efeitos especiais

Na década de 90, Spielberg entregaria ao público o primeiro exemplar do que viria a se tornar uma nova “trilogia” – O Parque dos dinossauros (1993) baseado na obra do escritor Michael Crichton. Desta vez o público perderia definitivamente o fôlego com a perfeição espantosa dos dinossauros digitais criados para o filme. Uma legítima evolução nos efeitos especiais que iria possibilitar a produção de filmes como Matrix, Senhor dos Anéis e King Kong.

O Parque dos dinossauros como se esperava foi um grande sucesso de bilheteria em todo o mundo arrecadando 919 milhões de dólares. O sucesso possibilitou a realização de duas seqüências – O Mundo perdido e Jurassic Park 3, os dois primeiros dirigidos por Spielberg e o número três por um dos seus pupilos, Joe Johnson. O público ainda aguarda uma quarta aventura com os animais pré-históricos perseguindo e devorando humanos seja numa ilha ou na cidade.

O quase dono do mundo e das bilheterias

Parece que James Cameron não quer saber mais de fazer cinema, afinal de contas até hoje, quase dez anos depois de realizar Titanic, Cameron continua aproveitando os milhões que ganhou com a produção do filme estrelado por Leonardo Di Caprio em 1997. Pois é, onze Oscar, a maior bilheteria de todos os tempos (1 bilhão e 835 milhões de dólares), e ainda conseguindo empatar com Ben Hur que era o campeão absoluto (agora O Retorno do Rei entra para o time) dos vencedores dos prêmios da Academia. Mas nem sempre foi assim.

Quem acompanha a carreira de James Cameron, lembra do filme trash que ele dirigiu intitulado Piranhas II em 1984 com baixo orçamento bem ao estilo de Roger Corman de quem foi assistente. Neste mesmo ano ele iria finalmente dar o grande salto sua carreira. Seria tudo ou nada.

Cameron estava doente com trinta e nove gruas de febre quando teve um sonho com uma espécie de ciborgue. Daí nasceria à idéia para o filme O exterminador do futuro (1984) escrito e dirigido por ele e que alcançaria sucesso em todo o mundo e ganharia o grande prêmio do Festival de Avoriaz, em 1985. O roteiro é uma mistura de policial com ficção científica com efeitos especiais a cargo do especialista Stan Wiston,o mesmo de Alien, O Predador, Parque dos dinossauros entre outros. O filme também fez a carreira do até então pouco conhecido Arnold Schwarzenegger, que teria no ciborgue assassino T-850 o ponto alto de sua carreira. Schwarzenegger repetiria o personagem nas seqüências, O Exterminador do futuro 2 – o julgamento final, também dirigido por Cameron que realizou uma versão mais elaborada do primeiro filme, mais longo e com mais efeitos especiais; e Exterminador do Futuro 3 – a revolução das máquinas, que em minha opinião chega a ser melhor e mais divertido que o segundo, mas o primeiro continua imbatível. Neste último a direção ficou a cargo de Jonathan Mostow e James Cameron atuou como produtor executivo.

De volta ao cinema feito para divertir

Muitos filmes sobre viagens no tempo foram produzidos ( A máquina do tempo, Em algum lugar do passado), porém nenhum alcançou o sucesso da trilogia criada por Robert Zemecks e Bob Gale em De volta para o futuro, produzidos por ninguém menos de Steven Spielberg nos anos 80. O primeiro, realizado em 1985, fez sucesso apesar da desastrosa campanha de marketing em torno do filme. A história do filme todos conhecem. Marty McFly personagem perfeito para Michael J. Fox, é amigo de um excêntrico cientista chamado Emmet Brown, a quem chama de “Doc” e que acaba por inventar uma máquina do tempo movida a plutônio, que o amalucado doutor rouba de terroristas líbios, que logo descobrem e chegam justamente quando ele testa a máquina junto com Marty. Acontece um tiroteio. Marty consegue entrar na máquina e acidentalmente faz uma viagem no tempo voltando a 1955 quando passa a viver incríveis aventuras até conseguir voltar para seu tempo, inclusive acaba conhecendo seus futuros pais,o que gera muitas confusões.

Engenhoso, bem produzido, dirigido por um Robert Zemecks no auge da criatividade, um roteiro sensacional, elenco de primeira e um final que deixa caminho para uma possível seqüência. Segundo Zemecks o final na verdade teria sido uma brincadeira. Mas o filme fez tanto sucesso que em 1989 a segunda parte chegou aos cinemas e desta vez Marty e “Doc” acabam indo para o futuro, mais precisamente 2015, onde precisa salvar seu filho de uma enrascada. Muitas idas e vindas no tempo, presente, futuro e presente alternativo causaram confusão no público, mas mesmo assim De volta para o futuro 2 também fez sucesso. Os produtores, para economizar e ganhar tempo acabaram filmando simultaneamente a segunda e a terceira parte, quando os heróis vão para o western selvagem. Esta terceira parte resultou numa bem humorada homenagem ao velho western, Clint Eastwood, e clássicos como Matar ou morrer. Fez relativo sucesso e fechou todas as pontas deixadas abertas nos anteriores com chave de ouro.

A divertida truculência de um rato que virou policial

Em 1988 o ator Bruce Willis estrelaria um filme policial chamado Duro de matar dirigido por John McTiernan. Willis vinha do sucesso do seriado A gata e o rato onde era partner de Cybil Shepard e ninguém ou quase ninguém acreditava que aquele ator cheio de trejeitos, careteiro, cínico e irônico poderia ter futuro como ator de filmes de ação. Estavam todos enganados.

Bruce Willis é o policial nova-iorquino John McClane que está em Los Angeles para visitar a esposa, Holly Genaro que trabalha como executiva para uma multinacional. John chega ao Nakatomi Plaza onde acontece uma festa de natal. No entanto, um grupo de terroristas liderados por Hans Gruber, numa interpretação notável de Alan Rickman que num terno impecável faz todos de refém. John entra em ação. E todos sabem o que acontece a partir de então. Muitos tiros, mortes, ação incessante e seqüências de tirar o fôlego.

Duro de matar teria então mais duas seqüências – Duro de matar 2 (1990), dirigido por Renny Harlin. A história desta vez acontece num aeroporto que em meio a uma nevasca tem McClane entre os passageiros à espera de um vôo. Mais uma vez ali está John, sempre no lugar errado,mas na hora certa para enfrentar mercenários que planejam libertar um general que está prestes a chegar. Willis continua o mesmo do primeiro filme: reclama da situação, faz piadas com ele mesmo e entre uma ironia e outra, mata alguns bandidos só para variar.
Duro de matar 3 – a vingança seria realizado apenas cinco anos depois e desta vez com a volta de John McTiernan a direção. McClane está bem próximo de ser despedido quando é chamado por seu superior, pois um terrorista exige sua presença. John fica a mercê do bandido que é irmão de Hans Gruber, morto no primeiro filme e que parece querer vingança. Na verdade tudo não passa de uma nuvem de fumaça para disfarçar suas verdadeiras intenções. Mesmo não tendo empolgado muito, pois somente agora em 2007 uma quarta aventura está sendo produzida, Duro de matar 3 traz algumas ótimas seqüências e a participação de Samuel L.Jackson como um civil que ajuda McClane.

Continua...

Fotomontagem produzida e cedida pela jornalista Eliane Viana.

Trilogias do Cinema e afins – Terceira parte

Pistoleiros e gângsters contam a América

Assim como George Lucas e Steven Spielberg, o diretor italiano Sérgio Leone presenteou o público com duas trilogias – a primeira composta pelos filmes Por um punhado de dólares (1964); Por uns dólares a mais (1965) e Três homens em conflito (1966); e a segunda – Era uma vez no Oeste (1968), Quando explode a vingança (1972) e Era uma vez na América (1984).

Por um punhado de dólares realizado em 1964 apresenta Clint Eastwood com o um pistoleiro misterioso recém chegado em San Miguel, uma cidade muito rude, onde dois grupos rivais de contrabandistas aterrorizavam os cidadãos pobres. Rápido no gatilho, o estranho recebe ofertas de emprego das duas gangues. Porém sua lealdade não pode ser comprada, mas ele aceita os dois empregos desmascarando os criminosos com um inteligente jogo de confrontações mortais.

Com uma quantidade incrível de tiros, interpretações dinâmicas e uma atmosfera cinematográfica jamais vista em um filme deste gênero, este é o filme preferido do mestre Sergio Leone que escalou ainda Gian Maria Volonté para completar o elenco. Por um punhado de dólares pode ser visto como uma refilmagem de Yojimbo, o guarda-costas, dirigido por Akira Kurosawa em 1961.

Leone foi o maior e mais expressivo cineasta do chamado “faroeste espaguete” e com o sucesso de Por um punhado de dólares, logo no ano seguinte realizaria a continuação, intitulada Por uns dólares a mais (1965) que traria mais uma vez como protagonista o ator Clint Eastwood, que a partir de então se tornaria um astro.

"O Estranho Sem Nome" - em seu segundo trabalho na famosa trilogia de Sergio Leone. Com roteiro de Luciano Vicenzoni, Por uns dólares a mais é um clássico moderno - um dos maiores westerns de todos os tempos, segundo alguns críticos mais afoitos. Eastwood é um caçador astuto e de olhar aguçado seguindo a trilha sangrenta de Índio, o bandido mais traiçoeiro do território. Mas seu rival, o Coronel Mortimer (Lee Van Cleef), está determinado a apanhar Índio primeiro - vivo ou morto - Sem conseguir agarrar sua presa - ou eliminar um ao outro - os dois têm apenas uma opção: aliarem-se ou enfrentarem a morte certa nas mãos de Índio e seu bando de assassinos. No elenco destaque para Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté e Klaus Kinski.

Em 1966, Leone encerra de forma brilhante esta sua primeira trilogia com Três homens em conflito, que sem sombra de dúvida, é o mais ambicioso dos três filmes, impecável esteticamente e cujo estilo influenciou todos os filmes do gênero já filmados, Três Homens em Conflito é ação que mistura o mito e o realismo.

Clint Eastwood está de volta como o invencível "Estranho Sem Nome", desta vez ao lado de dois pistoleiros (Lee Van Cleef e Eli Wallach) à procura de uma fortuna em ouro roubado. Mas trabalho de equipe não é coisa fácil para indivíduos fora-da-lei com personalidades tão fortes, e eles logo descobrem que seu maior desafio é manter a concentração - e a vida - em um país arrasado pela guerra. Desenvolvendo um estilo de ação inédito, mas nunca igualado desde então.

O estilo de Leone influenciaria inúmeros cineastas, entre eles, Quentin Tarantino que o homenageia repetindo “seus grandes closes e longos períodos de silêncios” em Kill Bill Volume 2, isso sem esquecer de mencionar o uso da câmera em ângulos inusitados, a violência que explode de repente na tela e também os poucos mas precisos diálogos. Para Leone as imagens falam por si.

Sérgio Leone começou sua carreira com o assistente de estúdio, passando então por todos os estágios como cenógrafo, assistente de edição, editor, e quando o diretor de um filme de baixo orçamento que estava sendo produzido, Leone que era o assistente de direção, acabou escalado para assumir como diretor e terminar o filme. E o resto é história.

Encerrada a trilogia protagonizada por Clint, o cineasta italiano dá início a sua segunda trilogia com Era uma vez no Oeste (1968). Leone sonhava dirigir um dos maiores mitos de Hollywood – Henry Fonda – que na maioria de seus filmes atuou como personagens sempre ao lado da lei – aqui ele aparece barbado, e para espanto da platéia, como um terrível pistoleiro que logo na primeira cena dizima uma família sem poupar ao menos uma criança em quem atira friamente.

Cláudia Cardinale é a mulher que pretendia se unir a essa família de fazendeiros. Mas agora ela está só naquela casa e existe um poderoso construtor da estrada de ferro interessado em arregimentar a propriedade, nem que seja à bala. Sai o Homem sem nome de Eastwood e entra em cena Harmônica vivido de forma mais lacônica ainda por Charles Bronson que é o pistoleiro silencioso que auxilia a mulher.

Na seqüência inicial quando três pistoleiros esperam na estação de trem, Leone convidou Eastwood, Van Cleef e Eli Wallach, no entanto não aceitaram pois os personagens morrem logo em seguida num tiroteio com Harmônica. Era Uma Vez No Oeste tem a mais longa seqüência de créditos da história do cinema: 14 minutos.
Duas curiosidades: o diretor americano John Landis, de Os Irmãos Cara de Pau e Um Lobisomem Americano em Londres, foi um dos dublês do filme. E na década de oitenta, o diretor Robert Zemeckis prestou homenagem a Era Uma Vez No Oeste no filme De Volta Para O Futuro III, recriando a famosa cena panorâmica da estação de Flagstone para revelar a nascente cidade de Hill Valley.

O segundo filme, Quando explode a vingança (1972) é uma agitada história sobre poder e política dirigida e co-escrita (pois nela também trabalharam Luciano Vincenzoni e Sergio Donati) por Sergio Leone, o celebrado diretor de Três Homens em Conflito e de Era uma Vez na América. No elenco, o vendedor do Oscar Rod Steiger (No calor da noite) e James Coburn (Sete Homens e um Destino) juntos preparam uma ousada operação de fuga para libertar prisioneiros políticos, defender seus compatriotas contra a milícia bem equipada de um sádico oficial e arriscam suas vidas em um trem carregado com explosivos. Com uma magnífica filmagem realizada nos desertos da Espanha, este filme marcante também conta com uma trilha sonora brilhante e especial assinada por Ennio Morricone.

Leone fecha sua segunda trilogia com o melhor filme de gângster, (depois de O Poderoso Chefão de Coppola) sem sombra de dúvida a sua obra prima - Era uma vez na América (1984) produção que levou mais de dez anos para ficar pronta e que seria o último trabalho de Leone, que morreria logo em seguida.

Tendo como protagonistas Roberto De Niro e James Woods e ainda coadjuvantes de primeira linha como Elizabeth McGovern, Treat Williams, Tuesday Weld, Burt Young, Joe Pesci, Danny Aiello e William Forsythe. Era uma vez na América conta cinco décadas de crimes e das vidas das pessoas por trás deles. Um épico policial dramático e grandioso, com um elenco à sua altura. Mais que uma história da América, um fragmento importante da própria história americana. O filme traça um perfil histórico da América tendo como pano de fundo a máfia judia no país nos anos 20 indo até os anos 80. Um épico maravilhoso, com interpretações inesquecíveis, ótima reconstituição de época e trilha sonora inspirada de Ennio Morricone, habitual colaborador de Leone.

De como o demônio salvou um diretor

Mas não é somente de clássicos ou obras primas que as trilogias vivem. Existem também os cultuados filmes de terror trash realizados pelo hoje consagrado diretor da versão para cinema do Homem Aranha (que também caminha para se tornar uma trilogia). Falamos de Sam Raimi e dos seus filmes de início de carreira - A morte do demônio – Evil dead – (1983)

A trama gira em torno de um grupo de cinco jovens amigos que vai para uma cabana na floresta, onde descobrem uma indescritível e mortal criatura. Ao descobrirem o Necronomicon - O Livro dos Mortos e ao ouvirem uma gravação que exalta os poderes do demônio, sem querer libertam o horror em sua mais pura expressão. Um a um, eles enfrentam o poder do mal e se transformam em mortais e horríveis zumbis. E, quando resta apenas um deles, não há alternativa senão lutar pela sobrevivência durante a noite mais alucinante de toda sua existência. O sobrevivente é Bruce Campbell,amigo do diretor e que seria protagonistas das duas seqüências - Uma noite alucinante – Evil Dead 2 – (1987) que praticamente recicla a mesma história do primeiro filme, sendo que desta vez Sam Raimi tinha mais dinheiro para gastar com efeitos especiais e muito sangue.

Uma Noite Alucinante é a arrepiante história de um grupo de jovens que resolvem se hospedar numa cabana na floresta, onde descobrem uma fita com gravações de trechos do Livro dos Mortos. A evocação traz da floresta forças do mal que os transformam em monstros, para o desespero de Ash, o único que consegue resistir. À noite, munido apenas de uma serra elétrica e uma espingarda, Ash precisa combater uma horda de demônios e seres assustadores. E a trilogia se encerra em 1993 com Evil Dead 3 – a vingança de Ash.

O filme começa exatamente onde o último terminou. Ash é transportado para a Idade Média e é capturado pelos cavaleiros da região e é condenado à morte. A Idade Média mostrada no filme sofre ataques de demônios e mortos-vivos. Ash terá que enfrentar o Mal que o acompanha desde o primeiro filme da trilogia.

Esse filme foi inspirado graças a uma tarefa de faculdade, a qual Raimi teve que pesquisar o Livro dos Mortos. O primeiro filme fez com que Bruce Campbell se tornasse famoso no papel de Ash, apesar do filme não ter feito muito sucesso nos cinemas. Em 1986, com um orçamento bem maior, Sam Raimi decidiu fazer uma seqüência. Eles mantiveram Bruce Campbell e contrataram novos atores. Com o orçamento maior, eles puderam utilizar efeitos especiais mais sofisticados e também acrescentar mais fantasia. Sam Raimi, por ser um grande admirador dos três patetas, decidiu colocar menos horror e acrescentar ao filme algumas doses de humor estilo pastelão, fazendo deste um entretenimento ainda maior. Há uma cena em que Campbell corta a sua mão possuída pelo demônio e coloca no lugar uma serra elétrica. Assim, o personagem acaba se transformando em uma espécie de herói, caçador de demônios.

Seis anos depois, Raimi iniciou as filmagens do terceiro filme. Seguindo a fórmula, o filme começa exatamente onde parou o anterior, quando Ash foi sugado por um vórtice, criado pelo demônio, para a época medieval. Evil Dead 3 está longe de ser um filme de horror. Pode ser definido como um filme de comédia e aventura, que satiriza os outros dois filmes. Entretanto, o filme não decepcionou os fãs, que ainda aguardam uma tão sonhada continuação.

Claro que Sam Raimi cresceu muito como cineasta passando a explorar temas variados como suspense em Um plano simples com Bill Paxton e Billy Bob Thorton; O dom da premonição com Cate Blanchet; o sensacional Darkman – Vingança sem rosto com Liam Nielsen e isso sem falar no seu brilhante trabalho na adaptação do Homem Aranha para o cinema que em breve ganha sua terceira aventura na tela grande.

Nada se cria, tudo se transforma em cinema

Os fãs de ficção científica jamais esquecerão 1999 quando chegou aos cinemas o longa-metragem que causaria furor e mais uma revolução em matéria de efeitos especiais e movimentos de câmera. Estou falando do aclamado Matrix estrelado por Keanu Reeves que ganhou tanto dinheiro que nem precisaria atuar mais (Eu escrevi atuar?).

Proezas de tirar o fôlego. Efeitos alucinantes. Cenas de arrebentar. Keanu Reeves é Neo, o escolhido para destruir a Matrix. Ao seu como seu guia está Laurence Fishburne como o crente Morpheus e a esperançosa Trinity. Juntos eles lutam pela libertação da humanidade em Matrix, um suspense cibernético escrito e dirigido pelos irmãos Wachowski (Ligadas pelo Desejo). Um filme recheado de referências e citações que vão desde a Um Corpo Que Cai (1958), O Mágico de Oz (1939), filosofia, Alice no País das Maravilhas, Kung -Fu, e muito mais.

O filme fez enorme sucesso e ganhou quatro Oscars em 2000. Como não poderia deixar de ser, prêmios técnicos como Melhor Edição, Efeitos Sonoros, Efeitos Visuais e Som. Consequentemente os produtores logo inventaram que tudo fazia parte de uma “trilogia” e que aquilo era apenas o começo. Dois anos depois os fãs ficaram decepcionados com Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, ambos realizados simultaneamente.

Em Matrix Reloaded (2002) Neo pode voar e enfrenta clones do agente Smith. Mas talvez nem mesmo o "Escolhido", com novos e impressionantes poderes, seja capaz de conter o avanço das máquinas. Neo, Morpheus e Trinity. Todos estão de volta no segundo capítulo da trilogia Matrix - juntamente com novos aliados batalhando contra inimigos que são clonados, evoluíram e estão cada vez mais próximos de destruir o último enclave humano no planeta. Segundo o produtor Joel Silver “Matrix Reloaded é um filme pleno de revelações, que abre caminho para inúmeras revoluções".

Os fanáticos por erros de continuidade alegam que em Matrix Reloaded ocorrem mais de 100. Mas nem tudo nesta continuação caça níqueis é perda de tempo.Pelo menos a seqüência da auto-estrada, que custou cerca de 100 milhões, é a melhor seqüência do longa-metragem. A rodovia foi construída especialmente para o filme dentro de uma base militar nos EUA e foi destruída após as filmagens.

O último capítulo da trilogia Matrix, intitulada Matrix Revolutions, não há outra opção para os humanos. Para Neo, isso significa ir aonde ninguém jamais ousou - o coração da Cidade das Máquinas para uma luta cataclísmica contra o cada vez mais poderoso programa renegado Smith na melhor seqüência do filme.

Matrix Reloaded foi rodado simultaneamente a Matrix Revolutions, com os filmes sendo lançados nos cinemas americanos com a diferença de 6 meses entre eles. Ambos os filmes levaram 4 anos para serem concluídos, entre pré-produção, filmagens e pós-produção.

Terra Média toma de assalto à tela grande

O cineasta Peter Jackson é um obstinado e ao mesmo tempo um predestinado. Ao assistir o clássico de 1933 dirigido por Merian C. Copper intitulado King Kong, Jackson sabia que estava escolhida ali a sua profissão – cineasta – e que cineasta. Setenta anos depois do filme original, Jackson realizou seu tributo ao filme que mudaria sua vida. Mas antes ele teve de realizar uma outra proeza ainda mais difícil e que para muitos, impossível – adaptar para o cinema a trilogia baseada na obra do escritor J.R.R. Tolkien - O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O retorno do Rei.

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel (2001) é o primeiro filme da trilogia. Nele, o hobbit Frodo (Elijah Wood) herda a missão de salvar a Terra-Média do perverso Sauron, o Senhor do Escuro. Ele precisa conduzir o Um Anel até a Montanha da Perdição e destruí-lo para sempre. Para isso, conta com a aliança de oito bravos companheiros, que formam a Sociedade do Anel.

O filme é um convite para o mundo fantástico de Tolkien e suas criaturas mágicas como Hobbits, Elfos, Orcs e Magos. Para viver os personagens imortalizados pelos livros, o diretor Peter Jackson escolheu um elenco de estrelas: Elijah Wood (Tempestade de gelo), Ian McKellen (Deuses e monstros), Liv Tyler (Beleza roubada) Viggo Mortensen (O Pagamento final) , Sean Austin (Os Goonies), Cate Blanchett (Vida bandida), John Rhys Davies (Os caçadores da Arca perdida), Ian Holm (Tarzan, a lenda de Greystoke) e Orlando Bloom (Cruzada)

Com roteiro, produção e direção de Peter Jackson, o Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel ganharia quatro estatuetas do Oscar - Fotografia, Efeitos Visuais, Trilha Sonora e Maquiagem.

Os prêmios foram bem vindos, mas Peter Jackson encerrava a pausa nas filmagens e dava continuidade ao trabalho com a realização de O Senhor dos Anéis - As Duas Torres: A Sociedade do Anel se rompeu, mas a saga para destruir o Anel continua. Frodo e Sam são obrigados a confiar suas vidas a Gollum se quiserem chegar a Mordor. À medida que o exército de Saruman se aproxima, os membros sobreviventes da Sociedade, juntamente com outros povos e criaturas da Terra-média, preparam-se para a batalha.

Em Helm desenvolvem-se as melhores cenas de ação do filme. Todos os guerreiros de Saruman ganharam vida através de uma combinação de ação, miniaturas e o uso do software Massive, de propriedade da Weta Digital, dando raciocínio e vontade própria a cada personagem.
As Duas Torres também arrebanharia mais algumas estatuetas douradas do Oscar como Som, Edição Sonora, Efeitos Visuais, Direção de Arte e Montagem.

Finalmente quando chega às telas O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei acontece à esperada batalha final pela Terra-média. Frodo e Sam, guiados por Gollum, continuam sua perigosa missão em direção ao fogo de Mordor para destruir o Um Anel. Aragorn luta para completar seu legado quando lidera seus inúmeros seguidores contra o poder crescente de Sauron, o Senhor das Trevas, para que aquele que carrega o Um Anel possa completar sua missão. Peter Jackson encerra sua saga.

O Retorno do Rei entrou para a história do Oscar como a primeira fantasia a vencer como melhor filme. Além disso, recebeu todos os prêmios da cerimônia pelas quais foi indicado, igualando-se as 11 estatuetas de Ben-Hur (1959) e Titanic (1997). A trilogia O Senhor dos Anéis foi filmada simultaneamente, em um período contínuo de 18 meses cobrindo mais de 100 locações na Nova Zelândia. As filmagens foram enriquecidas por dois anos de pré-produção e outros dois de pós-produção.

No total, a realização ocupou sete anos do diretor, roteirista e produtor Peter Jackson. O script de mais de 400 páginas também deu trabalho para muitas outras pessoas: além dos 114 personagens com falas, 20.602 extras foram usados nos três filmes e no auge da produção havia 2.400 pessoas trabalhando entre as equipes técnica e de criação. A criatura em CGI, Gollum, que foi eleito por uma lista de especialistas da revista Premiere como o 10º personagem mais importante da história do cinema.

Os fãs aguardam ansiosos pela chegada do Hobbit um novo filme baseado na obra de Tolkien tendo na direção ninguém menos que Peter Jackson que conhece muito bem o universo da Terra- Média.

Dos quadrinhos para as telas de cinema

Depois do fracasso vertiginoso do longa-metragem Batman e Robin dirigido pelo alegórico Joel Schumacher (Batman eternamente) os produtores ficaram com receio de produzir uma adaptação de personagens de revistas em quadrinhos para o cinema. Felizmente com a estréia e o sucesso de X-Men, o filme em 2000 o cenário mudou e a sensação de que daí para frente tudo seria diferente trouxeram à tona novos projetos.

A direção de Bryan Singer e a escalação de um ótimo elenco que incluía o até então desconhecido Hugh Jackman (que ganhou o papel quando o ator escalado sofreu um acidente nas filmagens de Missão: Impossível 2) para o papel de Wolverine, Patrick Stewart como Charles Xavier, Ian McKellen interpretando Magneto e ainda Famke Janssen , James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn-Stamos, Bruce Davison.

Nascidos em um mundo cheio de preconceitos, estão alguma crianças que possuem poderes extraordinários e perigosos - resultado de mutações genéticas especiais. Ciclope (James Marsden) lança raios de energia com seus olhos. Tempestade (Halle Berry) consegue manipular o clima segundo sua vontade. Vampira (Anna Paquin) absorve a força vital de qualquer pessoa que ela toque. Mas sob a orientação do Professor Xavier (Patrick Stewart), estes e outros renegados aprendem a direcionar seus poderes para o bem da humanidade. Agora eles devem proteger aqueles que os temem, pois o traiçoeiro Magneto (Ian McKellen), que acredita que os humanos e os mutantes nunca poderão coexistir, prepara um plano sinistro para o futuro!

Com o sucesso do primeiro filme em 2003 Bryan Singer entrega a esperada seqüência X-Men 2. Agora, após ser desfechado um ataque contra o presidente dos Estados unidos, uma guerra entre humanos pode ser deflagrada. As notícias do ataque causam clamor público contra os já malvistos mutantes. Os opositores contam com o apoio do General William Stryker (Brian Cox), um líder militar que vem lutando para controlar e restringir todos aqueles que são diferentes. Stryker coloca em ação um plano para extinguir os mutantes na face da Terra.

Os X-Men, um grupo de mutantes reunidos em boa causa, precisam lutar juntos contra um inimigo comum (Stryker) para salvar os mutantes e possivelmente toda a humanidade. X-Men 2 é um filme de muita ação, no qual muitos segredos são desvendados durante a luta do bem contra o mal.

O momento decisivo estava sendo apenas adiado e o dia do embate é inevitável. Em 2006, Bryan Singer abandona os X-Men para se dedicar ao longa-metragem que marcaria a volta do Homem de Aço. No entanto um novo diretor teria de ser escolhido o mais rápido possível. Brett Ratner foi o eleito e realizaria o que muitos achavam impossível, ou seja, o melhor filme da franquia - X-Men: O Confronto Final (2006)

A trama gira em torno da descoberta de uma controversa "cura", os mutantes podem escolher manter seus poderes super-humanos ou abdicar de seus dons exclusivos e tornarem-se "normais". Quando o pacifista líder mutante Charles Xavier diverge de seu oponente mutante Magneto, suas visões opostas podem desencadear a guerra que acabará com todas as guerras! Com ação ininterrupta, efeitos especiais espetaculares X-Men O Conflito Final é uma força da natureza.

Liberdade, Igualdade e Fraternidade matéria prima para bom cinema ou uma trilogia francesa

A Trilogia das Cores concebida pelo cineasta Krzysztof Kieslowski começou em 1993 com a estréia de A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu) que se passa na França, início dos anos 90, às vésperas da Unificação Européia. Juliette Binoche (O Paciente Inglês) é Julie que perde o marido, um famoso compositor, e a filha num trágico acidente de carro. Traumatizada, ela procura se libertar de tudo que lhe lembre o passado e, aos poucos, tenta reencontrar a vontade de viver.

Em 1994, Kieslowski lança a segunda parte de sua trilogia, intitulada A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc) protagonizado por inexpressiva Julie Delpy (Antes do amanhecer). Delpy interpreta a francesa Dominique que casada com o polonês Karol muda-se para Paris. O casamento não dá certo e Dominique pede o divórcio. Karol passa a viver como mendigo na capital francesa. Após muitos contratempos, ele volta para Varsóvia, onde consegue enriquecer. Ainda apaixonado, Karol trama uma inusitada vingança contra a ex-esposa.

A Trilogia das Cores de Kieslowski é encerrada com A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge) também de 1994. Valentine vivida por Irène Jacob é uma jovem modelo que vive em Genebra. Certo dia, atropela uma cachorrinha e, preocupada, sai em busca de seu dono. Assim, conhece o homem que mudará a sua vida: um juiz aposentado interpretado por Jean-Louis Trintignant (Um homem,uma mulher) que passa os dias espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. É o início de uma história de redenção, compaixão e perda sobre a comunicação entre os homens.

Neste último capítulo arquitetado por Krzysztof Kieslowski é possível ao mesmo tempo unir a grandiosidade e a simplicidade deste cineasta que soube como poucos contar uma história através de personagens que passam pela vida uns dos outros causando,como acontece na vida real, mudanças que transformam, inspiram e mostrando um novo sentido para a vida de cada um deles.

O silêncio como forma de dizer algo importante ou uma trilogia suéca

A Trilogia do Silêncio, também conhecida como Trilogia da Fé, é um dos pontos altos da filmografia de Ingmar Bergman. Esta trilogia conta com os filmes Através de um Espelho (1961), Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; Luz de Inverno (1962) e O Silêncio (1963) trazendo no elenco atores e atrizes habituais da filmografia do diretor sueco como Harriet Andersson e Max Von Sydow.

Acaba de ser lançado um pack em embalagem de luxo traz estas três obras-primas que constituem esse monumento cinematográfico: Todos os filmes são apresentados em impecáveis versões restauradas e remasterizadas, que resgatam a beleza da fotografia em preto e branco do genial Sven Nkyvist.

A dor da falta de comunicação através do cinema ou uma trilogia italiana

Outra trilogia sobre o silêncio também faz parte da filmografia do diretor italiano Michelangelo Antonioni que realizou A aventura (1960); A noite (1961) e por último, O eclipse (1962).

A primeira parte da trilogia, o filme A aventura com Gabrielle Ferzetti e Monica Vitti nos papéis principais, não é apenas uma crônica sobre o vazio, a angustia, a incomunicabilidade vigentes numa sociedade, mas também, principalmente, uma obra em que são exploradas ao máximo as possibilidades da expressão cinematográfica, onde Antonioni despreza o dialogo, a montagem, o som e a música, e que o significado é transmitido ao espectador através da imagem.

A história é bem simples:uma rica e jovem romana (Lea Massari) embarca num cruzeiro com o amante e um arquiteto, vivido por Gabrielli Ferzetti. Ela desaparece numa ilhota deserta. Com uma de suas amigas (Monica Vitti), o arquiteto percorre a Sicília em busca da desaparecida, que os dois acabam a esquecendo, tornando-se amantes.

O segundo filme desta trilogia, A noite, traz no elenco três monstros sagrados do cinema europeu – Marcello Mastroiani, Jeanne Moreau e Monica Vitti, que parece fazer a ligação entre os três filmes, pois atua em todos eles.

Poucos filmes, como este A noite expressam, ao mesmo tempo duas questões essenciais e aparentemente contraditórias: a grandeza do cinema e a crise da nossa civilização. Michelangelo cultua um cinema voltado com todo o seu poderio expressivo, para a dor e a solidão do homem moderno. O cineasta termina por concretizar em imagens o mais inteligente, amplo e revelador painel sobre os descaminhos do nosso mundo e o sofrimento dos seres que nele vivem.

Em 1962, Michelangelo encerra sua trilogia com O eclipse. A história também é bem simples. Um jovem, mais uma vez Monica Vitti, após romper com um amante mais velho, encontra-se de férias em Roma, e se torna amiga de corretor da bolsa vivido por Alan Delon. Tudo vai aparentemente bem, até que um acidente lhe revela a baixeza do homem. Pura desculpa para mostrar a fragilidade dos relacionamentos, a instabilidade moral e ainda o drama da incomunicabilidade humana.

Última parte da trilogia iniciada com A aventura e A noite. Mal acolhido pela crítica e pelo público, este filme, segundo os críticos, é superior ao antecedente. O filme possui seqüências belíssimas como o rompimento dos amantes; o encontro no apartamento do corretor; e ainda o passeio da mulher sozinha por um bairro, onde, a noite cede surdamente a palavra à água, aos vegetais, e insetos. Para Michelangelo Antonioni, o silêncio precisa apenas de imagens. O resto é desnecessário, principalmente no cinema realizado por ele. O pior é que o cineasta tem razão.

Sim, nós também temos trilogias

Como estamos falando de trilogias com certeza as duas únicas realizadas por cineastas brasileiros não poderiam deixar figurar aqui. Houve um tempo em que Arnaldo Jabor ganhava a vida tentando fazer cinema e que o cineasta Roberto Faria, que dirigiu filmes sérios como Assalto ao trem pagador, realizaria também filmes escapistas como os protagonizados por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia.

Começamos com a Trilogia do Apartamento, assim batizada pelo próprio Jabor. A trilogia teve início em 1978 com a realização do longa-metragem Tudo bem, que é a história de uma família cercada de Brasil por todos os lados, que se acha capaz de viver isolada dos males do mundo. Até que chegam os operários para reformar a casa, e com eles o cortejo de loucuras da vida lá fora. Numa comédia corrosiva, Tudo Bem mostra o caos nosso de cada dia. É uma comédia sobre o conflito entre as classes sociais que se concentram neste microcosmo que é o apartamento.

Nas palavras de Arnaldo Jabor: "Em Tudo bem, eu tento mostrar a realidade e as fantasias ridículas dentro de nossa classe média e a tragédia dos miseráveis que circulam fora. O filme pretende provocar um riso político e crítico no espectador."

Em 1981 Jabor reúne dois dos maiores símbolos sexuais do cinema nacional – Sônia Braga e Vera Fischer – em Eu te amo uma fantasia romântica sobre o desejo e a paixão que se tornaria um grande sucesso de público nos anos 80. Ainda no elenco Paulo César Pereio e Tarcísio Meira.

Tudo se passa dentro de um apartamento fantástico, como um caleidoscópio ou um palácio de espelhos, onde os delírios do amor e do sexo se refletem num ritmo alucinante. É a história de um homem, industrial falido no milagre dos anos 70, e de uma mulher que desejam desesperadamente se amar e que, ao mesmo tempo, têm um medo brutal desse encontro. Eu Te Amo começa como drama psicológico, evolui para a comédia e erotismo e acaba como um grande delírio musical.

Com produção de Walter Clark, roteiro e direção de Jabor e músicas de Antonio Carlos Jobim, Chico Buarque, César Camargo Mariano, Eu te amo sairia campeão do Festival de Gramado 1981 premiado como melhor design de produção, som, fotografia e atriz para Sônia Braga.

Cinco anos depois de Eu te amo, Arnaldo Jabor encerra sua trilogia do apartamento com Eu sei que vou te amar (1986) que acompanha um casal jovem que se ama até o delírio resolver viver em duas horas um jogo da verdade sobre tudo o que já lhes aconteceu, numa psicanálise filmada com risos e lágrimas.

Pela sua atuação Fernanda Torres recebeu o Prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Cannes de 1996 Fernanda divide a cena com Thales Pan Chacon.

Roberto Carlos em ritmo de aventura na música e no cinema

Para quem se acostumou com as manias do “rei” Roberto Carlos talvez tenha esquecido que houve um tempo que ele era menos arredio e que atuou em três filmes dirigidos por Roberto Farias – Roberto Carlo em ritmo de aventura, Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa e Roberto Carlos a 300 km por hora – misturando música, aventura, escapismo que deixaram saudade no cinema brasileiro. Claro que os filmes estão longe de serem obras primas cinematográficas,mas pelo menos têm a pretensão de apenas divertir.

Com produção e direção de Roberto Farias, Roberto Carlos em ritmo de aventura (1967) é um filme que possui ingredientes que agradaram o público da época, ou seja, ritmo, ação e emoção não faltam nesta história de intrigas internacionais. O Rio de Janeiro com suas belezas naturais e Nova Iorque com sua magnitude servem como pano de fundo para o desempenho de Roberto Carlos. Tudo renegado com suas inesquecíveis canções: Como é Grande o Meu Amor, Eu Sou Terrível, Eu Te Darei o Céu.

Pela primeira vez como protagonista de um filme, Roberto Carlos dispensou dublês e teve que viver várias cenas perigosas nesta superprodução de Roberto Farias. Para se desvencilhar de bandidos internacionais que querem raptá-lo, RC abusa de acrobacias como descer dentro de um carro pendurado num guindaste e atravessar o Túnel do Pasmado no Rio de Janeiro pilotando um helicóptero, esta a melhor seqüência do filme.
O filme teve locações como o Corcovado, o Maracanã e a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, além das seqüências gravadas em São Paulo e em Nova York. As filmagens com helicóptero chegaram a parar o trânsito de Copacabana. Para rodarem cenas no Cabo Kennedy, nos Estados Unidos, a ousada produção do filme conseguiu um feito inédito: autorização da NASA para filmar nas torres de lançamento de foguetes. Como resultado, Roberto passeia pelo espaço, em imagens que mostram a Terra fora da atmosfera.

Roberto aparece cantando sucessos como "Namoradinha de um amigo meu", "Negro Gato", "Eu te darei o céu", "Eu sou terrível", "Como é grande o meu amor por você", "De que vale tudo isso", "Por isso corro demais" e "Quando", esta cantada numa cena antológica em que Roberto se apresenta no alto de um prédio (confira no vídeo abaixo). A trilha sonora de "Roberto Carlos em ritmo de aventura" foi lançada num disco com este mesmo nome em novembro de 1967.

No elenco além de Roberto Carlos; o eterno vilão das chanchadas José Lewgoy, Reginaldo Farias, irmão do diretor e Rose Passini interpretando a mocinha.

A aventura seguinte Roberto Carlos e o diamante cor de rosa (1968), também produzido e dirigido por Roberto Farias, o cineasta reúne o famoso trio dos tempos do programa Jovem Guarda – Roberto, “Tremendão” Erasmo Carlos e a “Ternurinha” Wanderléa.

Este filme tornou-se um dos maiores êxitos de bilheteria da época. Os três amigos viveram aventuras em vários países da África e da Ásia, atrás de um diamante perdido dois mil anos antes, e enfrentando um grupo de bandidos, liderados por José Lewgoy.

Neste filme Roberto lançou diversos sucessos. Os três enfrentam situações arriscadas ao som de sucessos da década de 60, como "Não vou ficar" e as "As curvas da estrada de Santos". Nele, os truques cinematográficos da época não foram poucos, e nem as namoradinhas, que ao todo eram sete.

Rodado em Israel, no Japão, em Portugal e no Brasil, o filme mostra os três maiores ídolos da Jovem Guarda (Roberto, Erasmo Carlos e Wanderléa) vivendo uma série de aventuras por causa de um valioso diamante cor-de-rosa. A confusão começa quando Wanderléa compra uma estatueta antiga que desperta a cobiça de um bando liderado pelo personagem de José Lewgoy.

A "Ternurinha" some inexplicavelmente e a dupla Roberto e Erasmo resolve investigar a origem da escultura. Eles descobrem que o objeto guarda o mapa do esconderijo de um diamante levado para o Brasil em 2.800 A.C. por navegantes fenícios. Depois de se disfarçarem e até se envolverem em uma luta de espadas com samurais, os dois acabam resolvendo o mistério.

As gravações de "Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa" duraram cerca de um ano e o resultado final é um filme cheio de sucessos como "Não vou ficar", de Tim Maia, e a instrumental "O diamante cor-de-rosa".

Roberto Farias encerra a trilogia com o regular Roberto Carlos a 300 km/hora (1971) que traz no elenco além da dupla Roberto e Erasmo Carlos (desta vez Wanderléa ficou de fora) Libânia Almeida, Raul Cortez, Otelo Zeloni, Walter Foster, Flavio Migliaccio, Reginaldo Farias, Mario Benvenuti.

O filme, segundo Farias, “é a grande oportunidade do público descobrir o grande intérprete cinematográfico que existe em Roberto Carlos. Entre a fúria das máquinas que roncam a cada curva e os braços da mulher amada, ele mostra sua nova face de ator”.

Neste filme, Roberto Carlos vive Lalo, um mecânico de uma revendedora de carros que quer ser piloto de automobilismo, sonho que divide com seu melhor amigo, Pedro Navalha (Erasmo Carlos). O patrão dos dois, Rodolfo (personagem vivido por Raul Cortez), é um piloto que não consegue mais correr desde que um acidente o deixou traumatizado. Com a desistência de Rodolfo, Pedro planeja fazer com que Lalo corra no lugar do patrão em Interlagos.

A trama amorosa corre em paralelo, já que Lalo vive uma intensa paixão por Luciana (Libânia, foto à direita), namorada de Rodolfo, com quem pouco fala. Enquanto o sonhador personagem de Roberto tenta concretizar seus desejos, o espectador é presenteado com uma trilha sonora romântica da qual "De tanto amor” é o maior destaque.

No único longa-metragem em que Roberto não aparece cantando, o diretor Roberto Farias valorizou as cenas em que RC dirige carros de corrida. Em meio a roncos de motor e muita fumaça saindo dos pneus, estas são as seqüências mais movimentadas do filme.

Quase um ponto final, mas nunca se sabe.

Aqui encerramos nossa trilogia de artigos sobre as trilogias da história do cinema. Paramos por aqui pois não é nossa intenção esgotar o assunto. Esperamos que os caros leitores tenham gostado.

Humberto Oliveira
a fotomontagem foi produzida e cedida pela jornalisra Eliane Viana